Ridley Scott nunca faz um filme por fazer. Sempre que se resolve a contar uma história, o diretor mergulha nela, deixa-se ensopar pelo que pode haver de mais genuíno em seu enredo, até que, como por encanto, surge algo que embora passe longe de ser original, tem sua medida de inovador. Scott, um dos profissionais mais respeitados de Hollywood, é conhecido pelo jeito extremamente pessoal com que encaminha seus filmes, cada um revestido de um estilo próprio, seja ao resvalar para a ficção mais delirante, seja reproduzindo tramas saídas da realidade, ainda que eivadas de um componente expressivo de fantasia. No primeiro caso, “Prometheus” é sem dúvida um dos grandes trabalhos do diretor, por congregar efeitos especiais e uma trama absurda, mas crível.
Metáforas e entrelinhas
O sonho tresloucado de eternidade apela à falsa ideia de interesse coletivo, mas é, em verdade, a compensação solitária de vaidades muito íntimas, de mágoas profundas. Imagens cristalizadas no inconsciente de toda uma geração — cercada pelo passado que resiste em ceder lugar ao futuro, corporificado por máquinas que aludem a uma nova era e a novos desafios —, não se apagam de uma hora para a outra, dificuldade adicional para que se alcance uma conclusão lógica. Como de hábito, Scott extrapola a barreira mais titânica para seduzir o público e aproximá-lo do que está pensando, o que às vezes exige insânia. Aos poucos, fica clara sua menção a “Frankenstein”, o Prometeu Moderno, reavivando-se o debate cada vez mais urgente sobre a necessidade feminina de afirmação, um problema de que Mary Shelley (1797-1851) já se ressentia em 1818, quando da publicação da bicentenária obra-prima. Pleno de detalhes, o roteiro de Damon Lindelof e Jon Spaihts fixa-se numa introdução perturbadora, exibindo o assombroso planeta em algum lugar do universo, a cerca de quatrocentos trilhões de quilômetros daqui, onde a narrativa começa. Ainda mais assustadora é a criatura que se vê, um humanoide de pele azulada que pode ter dado o pontapé inicial na jornada do homo sapiens na Terra.
Corrida espacial
Viajamos para 2093, quando uma tripulação bastante sui generis ocupa a nave que dá nome ao filme. Entre eles estão a arqueóloga Elizabeth Shaw e o astrofísico Charlie Holloway, que algum tempo antes relataram na ilha de Skye, no noroeste da Escócia, um padrão comum para uma infinidade de organismos pluricelulares que povoaram outros corpos celestes, descoberta que mistura nosso amanhã distante à pré-história e nossa espécie àquela vizinhança nebulosa. Os personagens de Noomi Rapace e Logan Marshall-Green personificam embates filosóficos quanto a nossa real origem, sobrepondo Darwin e o Deus cristão. Entretanto, o mais importante vem depois.
E Deus criou a mulher
É no terror que Scott quer chegar. As tais criaturas de outros mundos que podem ter vindo parar entre nós são parentes daquelas mostradas em “Alien, o Oitavo Passageiro” (1979), a produção inaugural da franquia, assim como Elizabeth é a candidata a heroína da vez, como a Ellen Ripley de Sigourney Weaver. Rapace confere à protagonista a aura salvífica de uma pesquisadora que não tem intenção de desvencilhar-se de suas certezas espirituais, e até as alia ao trabalho, o que inspira a desconfiança de seus pares. Sem querer, Ridley Scott, um ateu não devoto, deu à luz uma das peças cinematográficas mais feministas e simpáticas à religião e, em especial, à doutrina cristã, mágica que só conseguem a arte em geral e o bom cinema em particular.
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