O passado sabe esperar. Ao menor sinal de que pôde-se vencer um trauma, corrigir um erro e começar de novo, ele dá o bote, ávido por reaver o que julga ainda ser seu. Escolhas equivocadas, ligações sombrias, atitudes tempestuosas viram um fantasma persistente, de que se quer fugir a todo custo. Essa é a guerra que Pappi, um homem dado à reflexão e ao silêncio, passa a travar em “O Padeiro”, um drama de família que vai ficando caótico e imprevisível, sem prejuízo do foco. Jonathan Sobol dedica atenção especial à artesania das performances, numa curiosa brincadeira metalinguística, deixando que a simplicidade do personagem central brilhe. Sobol tira do elenco afinado um desempenho que supera expectativas, mesmo quando a cadência rápida demais ameaça cansar.
Ligações ocultas
Meninos grandes, cuja aparência ingênua é inversamente proporcional a seu poder de fogo, sempre conseguiram despertar no público sentimentos muito controversos. Sobol e os corroteiristas Paolo Mancini e Thomas Michael concentram-se nas várias camadas do personagem-título, um sujeito calejado, mas agora sereno, que no fundo sabe que seu telhado é de vidro. Pappi abriu uma padaria num lugarejo perdido nas Ilhas Cayman, no litoral oeste do Caribe, e parece satisfeito em acordar com as galinhas, sovar a massa e assar pães para clientes que nunca lotam seu estabelecimento. Ele tem a vida que pediu a Deus, até Peter, o filho com quem há muito não fala, reaparecer, trazendo a neta que o padeiro não conhece. Peter some outra vez, mas Delphi fica, para que ele resolva um problema misterioso. Pano longo.
Antiguidade é posto
A chegada de Delphi bagunça a vida de Pappi, subtrama de que o diretor tira todo o proveito que consegue, mirando o contraste entre o velho e a garota, ele doce, ela nem tanto. Se ainda fosse possível não notar a riqueza narrativa encarnada por Pappi, Ron Perlman trata de dirimir qualquer resquício de dúvida, compondo o filme dentro do filme ao contracenar com Emma Ho, e a dupla fica especialmente adorável nas sequências em que ele tenta puxar assunto com a neta, quase nunca disposta a lhe dar esse gosto. Como não poderia deixar de ser, o embate entre Pappi e um grande desafeto de outros carnavais ocupa uma boa fração do terceiro ato, com Perlman e Harvey Keitel confortáveis ao expor suas rugas em preâmbulos de confrontos físicos em boates ou lavanderias. A urgência de recomeçar faz milagres.
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