“Back to Black” acompanha a trajetória de Amy Winehouse com os pés no chão e os olhos bem abertos para as escolhas que moldaram sua carreira e sua vida pessoal. Dirigido por Sam Taylor-Johnson, o filme traz Marisa Abela no papel da cantora e foca no período que vai dos primeiros passos em Camden até a explosão mundial com o álbum que dá título à produção. Amy quer cantar o que vive, do jeito que sente, enquanto lida com pressões da indústria, da família e de um relacionamento que tanto a inspira quanto a desestabiliza.
Amy começa como uma jovem de voz potente circulando por bares e pequenos palcos de Camden. Ela chama atenção pela autenticidade e consegue espaço em estúdios para gravar suas primeiras músicas. O pai, Mitch (Eddie Marsan), acompanha de perto cada passo, tentando organizar agenda, compromissos e contratos. Há cuidado ali, mas também controle. Ao mesmo tempo em que Amy ganha oportunidades concretas, ela passa a ter menos margem para errar. Cada gravação, cada reunião, cada entrevista amplia seu alcance e reduz sua liberdade.
Quando o relacionamento com Blake (Jack O’Connell) ganha força, tudo fica mais intenso. Ele não é apenas um namorado; torna-se presença constante, influência emocional e, inevitavelmente, parte da narrativa pública da cantora. Amy aposta nesse amor e transforma o que vive em música. As letras ficam mais pessoais, mais cruas, e isso a aproxima do público. Mas essa exposição também aumenta o escrutínio. O que antes era vida privada vira manchete, e o que poderia ser apenas conflito íntimo passa a interferir em compromissos profissionais.
A criação do álbum “Back to Black” surge nesse contexto. Amy decide gravar canções que falam diretamente de suas experiências, sem suavizar sentimentos. Essa escolha fortalece sua identidade artística e a projeta para um patamar internacional. O reconhecimento vem em forma de prêmios e convites para turnês maiores. A autoridade dela como artista cresce. Ao mesmo tempo, a pressão também aumenta. Quanto maior o palco, menor o espaço para falhas públicas.
O filme mostra como a agenda se torna um campo de batalha silencioso. Ensaios, viagens, entrevistas e shows disputam espaço com crises pessoais e tentativas de manter relações afetivas de pé. Amy frequentemente precisa decidir entre preservar a própria energia ou cumprir compromissos assumidos. Muitas vezes, ela sobe ao palco mesmo fragilizada, porque sabe que aquilo sustenta sua posição e mantém contratos ativos. A consequência é imediata: aplausos garantem continuidade, mas o desgaste se acumula.
Marisa Abela entrega uma Amy vibrante e contraditória, cheia de segurança quando canta e cheia de dúvidas quando precisa lidar com as pessoas ao redor. Jack O’Connell constrói Blake como figura magnética e imprevisível, alguém que impulsiona e complica na mesma medida. Eddie Marsan, como Mitch, representa a tentativa de manter alguma ordem em meio ao caos crescente. Ninguém ali é retratado de forma simplista. Cada personagem toma decisões acreditando estar fazendo o melhor, ainda que os resultados nem sempre confirmem isso.
Sam Taylor-Johnson conduz a narrativa sem transformar a história em julgamento. A câmera prefere acompanhar gestos concretos: uma gravação que precisa ser finalizada, um compromisso que não pode ser adiado, uma conversa que altera rumos imediatos. Não há glamour exagerado nem moral pronta. O foco está nas escolhas e nos efeitos práticos que elas produzem na carreira e na vida da cantora.
“Back to Black” mantém essa linha direta entre ação e consequência. Amy quer cantar, quer amar, quer ser fiel a si mesma. Cada uma dessas vontades exige negociação constante com empresários, família, imprensa e com ela própria. O filme deixa claro que o talento abriu portas gigantescas e que atravessá-las exigiu decisões difíceis. A gente fica com a sensação de que acompanhamos não apenas uma ascensão meteórica, mas o custo real de sustentar uma voz única sob luz intensa demais.
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