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Mark Ruffalo e Julia Roberts em um drama que parece grande demais pra ser “só um filme” — na HBO Max Divulgução / HBO Max

Mark Ruffalo e Julia Roberts em um drama que parece grande demais pra ser “só um filme” — na HBO Max

Homens fomos muito mais donos do mundo até meados dos anos 1980. Foi nessa quadra da História que uma inimiga sorrateira, cínica, perversa chegou para ficar, minando a resistência de marmanjos bem instalados em vidas frenéticas, de festas regadas a álcool, drogas e, claro, sexo livre. Em pouco mais de uma década, a aids tratou de reduzir a pó a reputação desses corcéis alados, que iam tombando atingidos em cheio em sua virilidade por um vírus novo, para o qual ainda hoje não há vacina, e que foi se alastrando para todas as camadas da sociedade, ricos e pobres; jovens e idosos; brancos e negros; homens e, por fim, mulheres, a despeito do que se fizesse no silêncio das alcovas. Por essas e muitas outras, relatos como o que Ryan Murphy faz em “The Normal Heart” continuam vigorosos, revelando um drama que a humanidade foi superando a custo, mas que nem por isso deixa de doer. A jornada de Ned Weeks até parece a saga um tanto fantasiosa de um anti-herói meio estabanado, aprendendo, entre um tropeço e outro, a lidar com uma nova realidade e a se reconhecer fazendo parte dela. Ned rompe uma marcha dolorosa em busca de alguma qualidade de vida para homens gays infectados pelo ainda obscuro HIV, uma sentença de morte quatro décadas atrás — enquanto, por óbvio, nunca deixava de sonhar com o milagre de uma cura redentora, definitiva —, surpreendendo-se a si mesmo com a inesperada sobrevivência diante de um cenário tão aterrador. Juntando o útil ao agradável, deu início a uma pequena revolução no acesso ao tratamento da síndrome, até ser colhido por uma rasteira.

Ficção e realidade

“The Normal Heart” é ficção, mas poderia não ser. Murphy faz pequenos ajustes no texto da peça autobiográfica de mesmo nome do dramaturgo e escritor Larry Kramer (1935-2020), de 1985, localizando os personagens em Fire Island, a maior ilha do litoral sul de Long Island, no estado de Nova York, no ano de 1981. Logo fica claro que Ned, um homem a princípio tomado por inseguranças e uma timidez quase patológica, é o alter ego de Kramer, impotente em meio ao estigma e à destruição em suas formas mais cruéis. Antes, ele e muitos outros homens mais novos e alguns mais velhos aparecem num convescote numa praia deserta, aproveitando a música, a bebida, os corpos uns dos outros, em interações que não raro levam a orgias. Um deles já havia tido um mal-estar, um jeito de Murphy dizer que o final não será nada feliz.

“Câncer raro”

À medida que as pessoas morrem, Ned sente que precisa tomar uma atitude, inclusive no que se refere a seu ganha-pão. Ele passa a escrever artigos entre furiosos e cheios dos poucos e incipientes dados médicos à mão, tentando desmistificar a aids como um câncer raro que se espalhava apenas entre homossexuais masculinos, momento em que o filme assume sua aura de melodrama televisivo, mas sem abandonar seu viés sério. É aí também que Mark Ruffalo começa a ter todo o protagonismo da história, costurando os diferentes núcleos ao passo que o enredo tem o condão de ficar realmente trágico. Capaz de uma atuação serena sem prejuízo da intensidade, Ruffalo reúne Julia Roberts, Alfred Molina e, principalmente, Matt Bomer em lances nos quais brilham em monólogos ou reagindo às provocações de Ned. Na pele de Emma Brookner, a epidemiologista paraplégica que desbrava a causa, Roberts galvaniza a sensação de inquietude e revolta que decerto torturava espíritos conscientes na época, da mesma maneira que Molina encarna Ben, o irmão mais velho de Ned, mirando as diversas perguntas que só serão respondidas décadas mais tarde. Entretanto, a performance de Bomer é o que faz de “The Normal Heart” algo especial. Nas primeiras cenas, seu Felix Turner parece o dono do mundo, no cobiçado posto de colunista social do “The New York Times”, aonde Ned vai à procura de apoio para divulgar o Gay Men’s Health Crisis, a ONG que funda com o propósito de acolher e dar informações aos doentes. O envolvimento dos dois volta ao episódio numa sauna em que se pode imaginar uma razão para que Ned tenha se tornado um patrono tão aguerrido dos gays após a aids, e o namoro dos dois, do apogeu ao último suspiro, é quase épico. Superando as expectativas — até aquelas sobre o trabalho de Ruffalo —, Bomer ganhou o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante em Série de TV, Minissérie ou Filme feito para Televisão. Ser gay já não é uma tragédia, a ciência avançou, mas convém não facilitar.

Filme: The Normal Heart
Diretor: Ryan Murphy
Ano: 2014
Gênero: Biografia/Drama/Romance
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.