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Eu amo o SUS

Eu amo o SUS

Não, eu não endoidei. Pode parecer chinfrim como a maioria das declarações de amor, mas, eu falo com sinceridade e com certo conhecimento de causa. Eu conheço o SUS por dentro. Parcialmente, mas eu conheço. Pela minha vivência como profissional de saúde. Decorridos trinta e três anos de trabalho como servidor público do Estado de Goiás, finalmente, aposentei-me. A sensação é um misto de felicidade e de embaraço. Explico. Ainda me sinto como o cachorro que caiu do caminhão de mudanças. Estou desconcertado com o ócio parcial, tendo em vista que continuo atuando na rede privada. Então, ainda não me considero apto a frequentar clubes de bingo, nem a jogar dominó com veteranos sob as sombras das árvores frondosas. Mesmo assim já me sinto velho. Não que isso seja um problema. Só não me sinto preparado. Ainda.

Fazer o quê? Meto poesia em tudo, sempre que possível, sempre foi assim. Considero que seja indispensável explicitar o meu orgulho e a minha gratidão por ter atuado durante tanto tempo no SUS — Sistema Único de Saúde —, por ter cuidado de gente pobre, por ter escutado gente humilde, ao atender como um singelo “médico de postinho”, ao longo de três décadas, zelando da saúde das mulheres, fossem elas adolescentes, gestantes ou idosas. 

O SUS foi concebido pela Constituição Federal de 1988. Na época, eu ainda tinha franja, cursava a graduação em medicina na Universidade Federal de Goiás e festejava o fim da ditadura militar no país. Depois de concluir a Residência Médica em Ginecologia e Obstetrícia, consegui a aprovação num concurso da secretaria estadual da saúde de Goiás, que propiciou o meu ingresso na rede pública de atendimento. Isso sucedeu no mesmo período em que se deu o processo de municipalização da saúde, ou seja, apesar de servidor estadual, fui colocado à disposição do município de Goiânia para trabalhar na rede básica. 

Basicamente, o esporte predileto do brasileiro é reclamar do governo. Então, como cantava Raul Seixas, “Eu também vou reclamar”. Longe de ser um sistema perfeito, o SUS já fez e continua fazendo muito pelos brasileiros, muitas das vezes, com inequívoca qualidade. Apesar de reconhecido como um paradigma positivo por várias nações desenvolvidas do planeta, é justo afirmar que há muito a ser melhorado. Faltam recursos financeiros. Sobram desperdício, má gestão, falta de planejamento e, até mesmo, maracutaias. Se existe inferno, quem rouba os recursos da saúde terá vaga garantida nos cafundós do Judas.

O SUS tem muito a entregar, particularmente, na ponta, na linha de frente, nas centenas de municípios onde estão os gestores locais, os representantes da classe política e os cidadãos comuns, usuários do sistema, geralmente, indivíduos que não dispõem de estofo financeiro o suficiente para bancar os caríssimos planos de saúde, muito menos, o atendimento pago em cash. Acima de tudo, é primordial que os cidadãos ponham tento, criem juízo e se conscientizem da necessidade primária de eleger candidatos comprometidos com as causas sociais mais elementares, como a saúde e a educação, que são os esteios da sociedade. 

Ao me pegar, de repente, fora de ação como servidor público, não posso simplesmente afirmar que a sensação seja de “dever cumprido”. Não é tão simples assim. Tenho certeza que poderia ter feito mais pela comunidade. Contudo, o sucateamento estrutural, a deficiência de recursos materiais, de insumos básicos, de resolutividade e, sobretudo, a falta de reconhecimento pelo serviço prestado, foram absolutamente broxantes. 

Durante a longa jornada como médico, nunca recebi o reconhecimento formal por parte do estado ou do município. Das pacientes e colegas de trabalho, sim; inumeráveis vezes, um verdadeiro bálsamo. Jamais fui questionado se necessitava de melhorias no local de trabalho para o exercício ideal das minhas funções médicas. Pelo jeito, não fui visto e, muito menos, lembrado, a não ser, como um número frio nos enfadonhos dados estatísticos que medem a “eficiência do sistema”. A despeito da extensa “ficha corrida”, aposentaram-me por meio da reles publicação de um decreto no diário oficial. E ficou por isso mesmo. Nenhum ato minimamente solene para a despedida. De maneira geral, não me considero um carente afetivo, no entanto, penso que não seria de todo ruim um “Muito obrigado, passe bem, apareça para um cafezinho”. 

Apesar da insuficiência de recursos financeiros e da atuação quase sempre incompetente dos gestores em saúde — refiro-me à turma do alto escalão, não me dirijo aos gestores locais, que estão na ponta e que passam pelos mesmos perrengues dos demais servidores — declaro o meu amor incondicional ao SUS. Não obstante as dificuldades cotidianas, as óbvias deficiências de funcionamento e o clima hostil nos serviços de pronto-atendimento, o SUS é um exemplo para o restante do mundo como exercício de justiça, de cidadania e de inclusão social, mesmo com a torcida em contrário daqueles que desdenham do sistema por serem abonados e não necessitarem dele. Espero que o SUS prospere, que se fortaleça e que haja mais investimentos, não somente com financiamento estatal generoso, mas, especialmente, com maior atenção, cuidado e manejo humanizado dos profissionais que atuam numa área tão espinhosa e complexa quanto a saúde pública. 

Acredito que o Brasil vai prosperar e se tornar uma das maiores potências do globo — sim, a Terra é redonda! —, em todos os sentidos. Idealizo um Brasil livre, justo e seguro, no qual todos os cidadãos terão acesso universal e igualitário à educação e à saúde, sem passar pelas terríveis mazelas cotidianamente noticiadas pela mídia, como o atendimento médico precário, a falta de medicamentos básicos nas farmácias e a insuficiência de vagas para realizar exames complementares, tratamentos clínicos e cirurgias eletivas. Já que é indispensável sonhar, sonhemos alto, muito além dos interesses pessoais e corporativos. O Brasil tem jeito. Isso não é poesia. Sonhemos com o coletivo. Um coletivo de justiça social e de felicidade plena, ainda que tardia, ainda que utópica.

Por fim, honestamente, comovido feito o diabo, agradeço aos meus pares, a todos os meus colegas e as minhas colegas de trabalho, aos meus gestores diretos e, especialmente, às milhares de pacientes que atendi ao longo do tempo, mulheres de todas as idades que confiaram a sua saúde aos meus cuidados. Isso não tem preço. 

Eberth Vêncio

Eberth Franco Vêncio, médico e escritor, 60 anos. Escreve para a “Revista Bula” há 15 anos. Tem vários livros publicados, sendo o mais recente “Bipolar”, uma antologia de contos e crônicas.