Em “Noé”, dirigido por Darren Aronofsky, Russell Crowe assume o papel de Noé, um patriarca que acredita ter sido escolhido pelo Criador para executar uma tarefa brutal: construir uma arca e decidir quem merece sobreviver ao dilúvio anunciado.
Noé vive isolado com a esposa Naameh (Jennifer Connelly) e os filhos Sem (Douglas Booth), Cam (Logan Lerman) e Jafé (Leo McHugh Carroll), em um mundo árido, marcado por violência e escassez. Ele tem visões, interpreta sinais e conclui que precisa procurar seu avô, Matusalém (Anthony Hopkins), para confirmar o que entendeu como um chamado divino. Essa decisão coloca a família em movimento e já deixa claro que a fé de Noé não é contemplativa, é prática e urgente.
No caminho, eles encontram Ila (Emma Watson), ferida e sozinha após um ataque. Noé decide acolhê-la, mesmo sabendo que isso pode atrasar a jornada. O gesto revela um lado compassivo, mas também amplia a responsabilidade que ele carrega. A partir dali, cada escolha passa a ter impacto direto sobre mais vidas.
Ao encontrar Matusalém, Noé recebe a confirmação da missão: construir uma arca gigantesca para salvar os animais de um dilúvio que eliminará o restante da humanidade. A orientação deixa de ser dúvida pessoal e vira ordem concreta. Ele volta decidido, com um plano que não admite negociação.
A construção da arca se torna o centro da vida da família. A estrutura cresce no meio da paisagem desolada, imensa demais para passar despercebida. O problema é que o mundo ao redor continua dominado por homens violentos, liderados por Tubalcaim (Ray Winstone), que disputam recursos e poder. A arca deixa de ser apenas um projeto de salvação e passa a ser um alvo.
Dentro da família, as tensões se acumulam. Sem apoia o pai, confia na promessa de continuidade ao lado de Ila. Cam, por outro lado, começa a questionar as decisões de Noé e a rigidez do plano. Ele sente que há algo injusto na forma como tudo está sendo conduzido. Naameh tenta equilibrar a casa, mas percebe que o marido está cada vez mais inflexível.
Aronofsky constrói esse conflito com peso emocional. Russell Crowe interpreta Noé como um homem dividido entre fé e medo de falhar. Ele não age como herói clássico; age como alguém pressionado por uma responsabilidade que ninguém mais pode assumir. Jennifer Connelly dá a Naameh uma força silenciosa, firme, que desafia o marido sem transformar o embate em caricatura. Anthony Hopkins, como Matusalém, aparece pouco, mas marca presença com um olhar que mistura sabedoria e mistério.
À medida que os animais começam a chegar para ocupar a arca, o plano se torna irreversível. Não é mais uma visão distante, é uma operação concreta, com espaço limitado e decisões duras. A família percebe que a embarcação não é apenas abrigo físico, mas também símbolo de escolhas que podem romper laços.
Quando grupos liderados por Tubalcaim descobrem a construção, a ameaça deixa de ser abstrata. A arca precisa ser defendida. A fé de Noé passa a ser testada não apenas pela natureza, mas pela violência humana. O que estava restrito ao ambiente doméstico se transforma em confronto direto.
“Noé” mistura ação, drama e épico com uma abordagem menos confortável do que se poderia esperar. Aronofsky não suaviza o peso das decisões. Ele mostra um protagonista disposto a ir até o fim da própria convicção, mesmo quando isso o afasta daqueles que mais ama. O filme não entrega respostas fáceis, nem busca agradar todos os públicos religiosos ou céticos.
Sem revelar desfechos, a sensação de que a arca não é apenas uma embarcação contra o dilúvio. É um espaço de tensão constante, onde fé, poder e afeto disputam o mesmo território. E, no centro disso tudo, está Noé, convencido de que salvar o mundo pode significar perder parte de si no processo.
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