Tyler Perry não se furta a priorizar apelo comercial e preterir estética ou destemor artístico. A repetição de fórmulas, narrativas, arquétipos, estereótipos e conflitos de fácil solução, pouco dados a ambiguidades, é sua marca registrada, e pelo sucesso de seus filmes, ele sacia à farta os anseios de certo público, faminto por entretenimento rápido e descartável. Perry faz filmes para as massas, dizem, com razão, os que o admiram. Mais uma vez, isso fica óbvio em “Joe e a Viagem de Carro”, outro de seus petardos contra o politicamente correto, que acabam atingindo também o bom gosto e o bom senso. O método da loucura perriana inclui poluição visual, palavrões, escatologia e, vá lá, alguma reflexão acerca de mal-estares que vão se perpetuando nas telas e além, o que pode despertar a consciência crítica de uns ou — o que é mais habitual — só ocupar 110 minutos. Homem de negócios, Perry fatura alto com o escracho do besteirol e suas risadas fáceis para gente que se satisfaz com pouco.
Tem graça?
O problema com os longas de Perry não é o atentado à harmonia e à ponderação, mas, em muitos sentidos, a falta de graça. Senão, vejamos. O diretor-roteirista encarna a si mesmo os personagens centrais do filme — expediente meio velho, que remete ao Eddie Murphy de “O Professor Aloprado” (1996), de Tom Shadyac —, e na abertura, aparece de cara limpa como Brian, um pai de família judicioso, que prima pela serenidade com que se comporta. Quase em desespero, ele vai à casa de Madea e Joe, sua tia e seu pai, buscando de conselhos sobre como lidar com Brian Jr., o BJ, seu filho adolescente. Nota-se logo o excesso da imagem de Perry, conjuntura de que Jermaine Harris tira bom proveito, sobretudo na virada do segundo para o terceiro ato, quando acontece a tal viagem do título, e BJ é levado pelo avô a conhecer a vida como ela é (ao menos a vida como ela é para Joe, um ex-cafetão que tem se empenhado para voltar aos bons tempos) antes de ir estudar numa UPTH, uma universidade preta de tradição histórica, decerto a melhor tirada do roteiro. Lamentavelmente, como sói ocorrer em quase tudo que Perry faz, o ânimo termina aí.
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