Em “Valor Sentimental”, Renate Reinsve, Stellan Skarsgård e Inga Ibsdotter Lilleaas, sob direção de Joachim Trier, vivem uma história em que cinema e família se confundem de maneira perigosa: um pai diretor decide voltar aos holofotes filmando algo inspirado na própria relação com as filhas, e isso cobra um preço imediato.
Gustav, interpretado por Stellan Skarsgård, é um cineasta experiente que já teve reconhecimento, mas agora precisa provar que ainda tem força na indústria. Ele anuncia que seu novo projeto será pessoal, quase confessional. A ideia parece estratégica: apostar na própria história para recuperar prestígio e financiamento. Para isso, ele convida Nora, vivida por Renate Reinsve, atriz de teatro respeitada, para assumir o papel principal.
Nora lê o roteiro e entende rapidamente que aquilo não é apenas ficção. Ela reconhece situações, diálogos e conflitos que pertencem à sua vida. Ao recusar o convite, ela protege a própria intimidade, mas também perde a chance de interferir na forma como será retratada. A decisão cria um impasse: Gustav precisa de um nome forte para viabilizar o filme, e o tempo para organizar a produção não espera.
Sem a filha no elenco, ele recorre a Rachel Kemp, estrela de Hollywood interpretada por Elle Fanning. Jovem, talentosa e entusiasmada com a chance de trabalhar com um diretor europeu consagrado, Rachel aceita o papel e se muda para acompanhar os ensaios. A entrada dela garante visibilidade internacional ao projeto e tranquiliza investidores. Mas também desloca o conflito para outro nível.
Rachel começa a perceber que está interpretando algo muito mais íntimo do que imaginava. Ela pede conversas com Gustav para entender melhor a personagem e, aos poucos, se aproxima de Nora e de Agnes, a irmã mais nova, vivida por Inga Ibsdotter Lilleaas. Ao buscar contexto, Rachel ganha acesso a detalhes delicados da família, mas também se vê no meio de uma tensão que não é dela.
Nora, por sua vez, não se afasta completamente. Ela acompanha leituras de roteiro, observa ensaios e questiona ajustes que considera invasivos. Cada intervenção dela obriga Gustav a rever cenas e reorganizar o cronograma. Ele insiste que tem direito de contar sua versão, mas enfrenta resistência dentro da própria casa. O set vira uma extensão da sala de jantar, e o que deveria ser criação artística passa a ser disputa por controle.
Agnes ocupa um lugar mais silencioso, porém decisivo. Ela conversa com Rachel longe das câmeras e compartilha lembranças que o roteiro não contempla. Ao fazer isso, altera a forma como a atriz constrói a personagem e muda o equilíbrio interno da produção. Gustav percebe que não controla tudo como imaginava, e isso enfraquece sua posição diante da equipe.
Joachim Trier conduz essa dinâmica com delicadeza e firmeza. Ele evita explosões melodramáticas e aposta em diálogos tensos, silêncios constrangedores e negociações diretas. O drama nasce das escolhas práticas: quem assina o contrato, quem aceita um papel, quem impõe limites. Nada é exagerado, mas tudo pesa.
“Valor Sentimental” funciona justamente por não buscar vilões fáceis. Gustav não é apenas um pai egoísta; ele é um artista tentando recuperar espaço. Nora não é apenas filha ressentida; ela é uma profissional que não quer ver sua vida transformada em espetáculo. Rachel não é intrusa inconsequente; ela tenta fazer seu trabalho da melhor forma possível. Cada um tem algo a ganhar e muito a perder.
O filme deixa claro que contar uma história nunca é neutro, especialmente quando ela envolve pessoas reais. Ao insistir em dirigir essa narrativa íntima, Gustav precisa lidar com as consequências práticas das próprias escolhas. E as filhas decidem, cada uma à sua maneira, até onde estão dispostas a permanecer dentro do enquadramento que ele criou.
★★★★★★★★★★




