Nos filmes de Wes Anderson, o mundo vem embalado para presente, num papel brilhante e colorido, e em “A Crônica Francesa do Liberty, Kansas Evening Sun” também é assim. À primeira vista, esta parece mais uma das delirantes caminhadas que Anderson faz do sonho para a dureza impiedosa da vida como ela é, mas não demora para o espectador logo veja que testemunha uma das mais certeiras reflexões sobre as várias metamorfoses experimentadas pela humanidade num período curtíssimo, aqui mirando nossa forma de registrar sensações e ideias. Ninguém mais opina com sensatez, a velocidade das redes sociais faz pouco de fundamentos primários do bom jornalismo como a boa e velha apuração, e há quem caia na armadilha de querer competir com a insânia do algoritmo, um monstro que insistimos em alimentar e que nunca fica saciado. Uma metáfora das mais felizes sobre o abismo que nos contempla.
O ímpeto das transformações
Nostálgico incorrigível, Anderson e os corroteiristas Roman Coppola e Hugo Guinness detalham o expediente de uma revista fictícia inspirada, claro, na “New Yorker”, prestes a fechar depois da morte de seu fundador. A “New Yorker” de Anderson é a publicação de nome pomposo do título, e seu Harold Ross (1892-1951) chama-se Arthur Howitzer Jr., que a levou de Liberty, Kansas, sua cidade natal, para a inventada Ennui-sur-Blasé, na França. Há uma sucessão de referências e jogos de palavras que não alteram o compreensão do público leigo, ainda que sem dúvida deixem o enredo infinitamente mais saboroso se percebidos, bem como vai ficando mais e mais nítida a intenção do diretor quanto a homenagear os guardiães da fortaleza intelectual de Ross. Recém-falecido, o Howitzer Jr. de Bill Murray continua mobilizando seus escritores a fazer da “A Crônica Francesa” o melhor veículo de imprensa do mundo, especialmente no que toca à coluna de Herbsaint Sazerac, paralelo óbvio com a The Talk of the Town da “New Yorker”. Sazerac, de um Owen Wilson sempre esgareiro, percorre toda Ennui-sur-Blasé numa bicicleta, colhendo os rumores que escuta e convertendo-os em causos repletos de muita picardia e alguma desesperança. E a plêiade da “A Crônica Francesa” é numerosa.
Tipos de gentileza
Anderson estrutura seu filme na tríade de histórias protagonizadas por tipos como Moses Rosenthaler, um artista plástico cumprindo pena de prisão perpétua por homicídio, mas nem tão torturado assim, uma vez que continua pintando, e que usufrui da companhia da guarda Simone, sua musa. Benicio Del Toro e Léa Seydoux movem o eixo do longa, contando ainda com o Julian Cadazio de Adrien Brody, um divulgador artístico determinado a reacender o interesse do público e da crítica por Rosenthaler. Del Toro, Seydoux e Brody prestam-se a mestres de cerimônia do amálgama de filosofia, retrospecto histórico e comentário político que se segue com Timothée Chalamet na pele de Zeffirelli, um revolucionário que ganha destaque durante os protestos de estudantes na Paris de 1968, perfilado por Lucinda Krementz, a suspeita repórter vivida por Frances McDormand, uma dupla improvável, mas efetiva. O melhor, naturalmente, fica por último, e Jeffrey Wright encarna Roebuck Wright com a força de um James Baldwin (1924-1987), caçando um certo Nescaffier, o famoso chef que passa a trabalhar no departamento de polícia. Steve Park rouba a cena em mais de uma ocasião, confirmando a máxima de que o acaso num filme deve ser medido com rigor. Anderson chega ao caótico universo de “A Crônica Francesa do Liberty, Kansas Evening Sun” sem descuidar de nada, embrulhando tudo com a infalível trilha sonora de Alexandre Desplat. Resta a crença de que esse cinema — e o jornalismo — não acabem.
★★★★★★★★★★




