Estar no topo da pirâmide social abre portas. Contudo, sempre há um ou outro desafio a ser superado, e talvez o maior deles seja convencer-se, a certa altura da jornada, que todos esses privilégios, os da biologia e os que ou vêm de berço ou se conquistam com trabalho duro, têm limites. De alguma forma, maneira, todos os personagens de “Um Mergulho no Passado” sofrem dessas angústias rosicleres, que vão adquirindo nuanças mais soturnas conforme se revelam. Poucos diretores contam essas histórias como Luca Guadagnino, que urde uma trama de desejo, memória, poder e glamour a partir de situações quase absurdas, a que o roteiro de David Kajganich confere um verniz de real, numa narrativa lúdica que espelha o mundo quase encantado daquelas pessoas.
Gente como a gente
Marianne Lane abre o filme dando um show num estádio cheio, mas logo terá de lidar com um revés. Enquanto isso, Guadagnino embrenha-se em sua vida feérica, juntando passado e presente num vaivém cronológico que torna-se a grande marca do enredo. Marianne parece mesmo habitar um Olimpo que afasta do restante da vil humanidade, mas só até ser obrigada a parar tudo, atingida por um problema nas cordas vocais. Aos poucos, fica claro que ela aproveita-se da mudez repentina para também parar de ouvir e recolher-se a sua própria normalidade, preocupando-se cada vez menos com sua imagem de estrela do rock. Marianne é acompanhada nesse movimento por Paul De Smedt, um companheiro romântico sempre próximo, com o qual faz amor a qualquer hora na casa em que passam a viver, em Pantelária, na Sicília. Mas eles não estão sós.
A invasão dos bárbaros
À David Bowie, Tilda Swinton vai ganhando a simpatia do público, compondo uma dupla improvável, mas coesa e envolvente com Matthias Schoenaerts; os dois, porém, terão de dividir a audiência com dois intrusos. Algum tempo atrás, o lugar de Paul era ocupado por Harry Hawkes, o produtor musical de Marianne, um caso sólido e repleto de detalhes inusuais. O próprio Harry foi quem os apresentou e agora, torturado pelo arrependimento, parece disposto a matar ou morrer para ter de volta aqueles bons dias. Ele chega a Pantelária com Penelope, a filha que descobriu recentemente, e o diretor reserva para Ralph Fiennes e Dakota Johnson as melhores passagens do filme. Leviana como o pai, Penelope empana um pouco mais o idílio dos anfitriões, e por isso não é tão insano o fim que Guadagnino dá a um de seus longas mais sarcásticos. E ele também é bom nisso.
★★★★★★★★★★




