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Indicado ao Oscar 2026, um dos filmes mais perturbadores dos últimos anos chegou à Netflix. Divulgação / Netflix

Indicado ao Oscar 2026, um dos filmes mais perturbadores dos últimos anos chegou à Netflix.

No que pode dar o afluxo de racismo estrutural e uma política que autoriza e estimula cidadãos a manter sob seu teto quantas armas puderem? Em barbárie e em sangue, como se assiste no ótimo “A Vizinha Perfeita”, uma história feito inúmeras outras já contadas. O que torna o documentário de Geeta Gandbhir especial, porém, é a crueza. Gandbhir lança mão de ligações para o 911, o número do serviço de emergência policial dos Estados Unidos, câmeras corporais dos agentes, vídeos de celulares e imagens de câmeras de segurança para reconstituir o assassinato de Ajike Owens (1988-2023), a AJ, aos 35 anos, por Susan Lorincz, 58, sua vizinha, que disparou com um revólver calibre .380 através da porta. Uma das faces de um ódio muito particular. 

Reclamações e ameaças 

Desde os primeiros dias de fevereiro de 2022, o departamento de polícia de Ocala, cidadezinha de 63 mil habitantes no centro-norte da Flórida, começou a receber chamadas e mais chamadas de Lorincz, reclamando de crianças que brincavam próximo a sua casa. Uma viatura era deslocada até lá, policiais procuravam pela autora da queixa, davam instruções aos pais dos garotos e tudo parecia resolvido. Parecia. Embora destaque a lhaneza dos patrulheiros, a diretora não deixa de registrar a ineficácia do método, uma vez que o enrosco aumenta. Lorincz não se cansa, os pais dos meninos não tomam uma atitude e, claro, depois que a situação sai do controle, aparecem os especialistas e suas soluções. Ela manifesta sinais claros de histeria, exagerando em sua sensação de perigo iminente, o que deveria ser um motivo a mais para que fosse evitada.

Crime e castigo

Owens é mortalmente ferida ao querer tomar satisfações com Lorincz, que teria dirigido insultos raciais a Isaac, seu filho do meio. Tudo aponta para um crime de ódio, motivado pela raiva da assassina, inconformada com o fato de ter de morar num bairro de classe média baixa, partilhando seu espaço com pessoas negras. O flagrante não é levado em conta, e só após um segundo interrogatório Lorincz é detida. O nome do documentário faz referência ao autoelogio da homicida, mostrada como é quando pensa que ninguém a vê: uma típica Karen, as senhoras brancas de meia-idade que partem com tudo para cima de indivíduos cujo fenótipo ou sotaque não correspondam aos seus. Os vários registros de que Gandbhir dispõe invalidam a tese da legítima defesa, denunciando a fera que se escondia entre gente amistosa e de bem, e Lorincz foi condenada por homicídio culposo em primeiro grau e sentenciada a 25 anos em regime fechado. Num país governado por Donald Trump, a fina flor do lixo branco da América, outras Ajike Owens vieram, sob o nome de Renee Nicole Good ou Alex Jeffrey Pretti.

Filme: A Vizinha Perfeita
Diretor: Geeta Gandbhir
Ano: 2025
Gênero: Documentário
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.