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Sangue e cárcere na memória recente

Sangue e cárcere na memória recente

Mais do que marcar o tempo, ampulhetas funcionam como metáfora pronta. A areia que escorre, afinal, subsiste. É matéria eterna. Nós morremos.

No ano passado passei uma noite no deserto do Saara. Naquela enormidade, era silêncio, vento e escuridão — apenas as estrelas pontiagudas no céu, que apontavam suas luzes para meus dedos. O tempo. A eternidade. O antes e o depois de cada ser humano. O antes e o depois da humanidade.

Uma marcha: militantes atordoados por discursos extremistas acreditam que a prisão de um ex-presidente do Brasil é arroubo autoritário ilegítimo. Engraçado. Afinal, o mesmo detento, ao longo de sua trajetória, defendeu o famigerado governo ditatorial que prendeu, matou e fez desaparecer muita gente no país. Sem direito a julgamento. Sem direito a uma cela digna. Com tortura verdadeira — e não um barulho de aparelho de ar condicionado; claro, nem havia ar condicionado. 

O ex-presidente do Brasil em questão teve direito a advogado, a apresentar sua defesa. E, preso, continua com a dignidade humana protegida, inclusive com os privilégios previstos para sua condição de ex-chefe de Estado. 

Mas os crimes pelos quais ele foi condenado, cabe ressaltar, são de natureza política. Porque houve uma tentativa de perpetrar um golpe no país, em flagrante desrespeito constitucional ao resultado legítimo de eleições democráticas. Este é o resumo da história.

Dói mais, na memória coletiva, a morte de 716 mil brasileiros pela pandemia de covid que assolou o mundo. Ceifadas precocemente, essas pessoas deixaram órfãs e órfãos, viúvas e viúvos, mães e pais, amigos com um lugar vazio na mesa do bar. 

O tempo faz com que consigamos olhar para a situação com a amplitude da história, não somente o momento da época. O Brasil, uma verdadeira potência dentre os países tropicais, sempre teve tradição em vacinação, com uma estrutura que permitia (e permite) campanhas capilarizadas e eficientes em todo o território. Na corrida que houve pelo desenvolvimento científico de algo que resolvesse de vez a pandemia que marcou nossa geração, era um prato cheio para as grandes farmacêuticas. Tinha tudo para ser um caso pioneiro. 

Sabe-se hoje que, por negligência, incompetência ou negacionismo, mensagens enviadas por uma gigantesca empresa que desenvolveu uma das importantes vacinas contra a covid jamais foram respondidas pelas autoridades que comandavam o Brasil em 2020. Estudos conservadores mostram que, se não fosse pelo atraso na imunização, 95 mil pessoas que morreram de covid hoje estariam seguindo suas vidas, na companhia de familiares e entes queridos. Estudos mais abrangentes chegam a apontar que esse número seria ainda maior: algo perto da enormidade de 400 mil pessoas.

Em 2021 meu primo morreu de covid. Deixou mulher, dois filhos, uma empresa e uma carreira política em minha cidade natal. Não sei, porque nunca perguntei, de que lado da polarização partidária brasileira ele estava àquela altura. Nem quero saber. Isso não importa diante da perda. 

Um ano antes, uma parente postou em suas redes sociais barbaridades que reverberam em minha memória até hoje. Segundo o texto, a culpa pela pandemia era de jornalistas como eu, que haviam inventado essa doença apenas para atrapalhar o governo do capitão idolatrado dela. A conclusão, sumária, era que todos os jornalistas mereciam ser executados em um paredão sangrento. 

Eu sou jornalista. Eu já era jornalista há muito tempo. 

Ela nunca pediu desculpas. 

Se Deus existir, que seja bondoso como Jesus teria clamado na cruz. Que perdoe os ignorantes, porque eles não sabem o que fazem. 

Se Deus existir, não será ele um senhorzinho de arma na mão. Isso tenho certeza. 

Ampulhetas seguem funcionando. A areia do Saara não para. Ao léu, ao sabor do vento. Cada duna é um relógio ambulante.

Edison Veiga

Edison Veiga é escritor e jornalista e vive em Bled, na Eslovênia, desde 2018. Publicou oito livros, entre eles ‘Titereiro’ e ‘O Menino que Sabia Colecionar’.