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Na Netflix, um ganhador do Oscar tratado como “filme do século” — e um dos romances mais importantes do cinema Divulgação / Focus Features

Na Netflix, um ganhador do Oscar tratado como “filme do século” — e um dos romances mais importantes do cinema

Na noite em que a história se organiza, “Encontros e Desencontros” apresenta Bob Harris em Tóquio para fazer um comercial de uísque e já prende o personagem ao relógio, porque ele não consegue dormir e atravessa horas acordado. O bar do hotel de luxo entra como lugar de permanência, com balcão e copo à vista, sem promessa de descanso no curto prazo. Bob cumpre a tarefa que o levou até ali e continua preso ao fuso na sequência, pagando em sono quebrado e em tempo de espera. Bill Murray conduz essa presença com ações pequenas e repetidas, sempre voltando ao mesmo custo prático, mais uma noite sem apagar.

Na manhã seguinte, Charlotte aparece dentro do hotel e o roteiro mantém o dado central sem completar o que não foi dito. Ela acompanha o marido, um fotógrafo workaholic, e fica sozinha o tempo todo porque ele a deixa assim. A rotina dela se mede em horas dentro do mesmo espaço, com cama e porta como limites, e o tempo passa sem que surja um compromisso próprio para ocupar o dia. A falta de sono também entra como problema do corpo, porque a noite anterior não trouxe descanso. Scarlett Johansson sustenta a personagem com presença contida, e o custo fica no que qualquer um reconhece, manhã que não rende e energia que não volta.

Copo e balcão de espera

À tarde, a agenda do comercial mantém Bob preso a horários que atrapalham o sono e encurtam o que ele consegue decidir fora do trabalho. Ele carrega essa obrigação como papel que volta para o foco, sempre ligado ao mesmo motivo que o trouxe à cidade. O hotel oferece mesa e cadeira, mas o uso desses objetos vira apoio para atravessar o tempo, não para recuperar o corpo. O resultado prático é simples e repetitivo, mais horas acordado, mais tempo parado, menos descanso acumulado. A tarde avança e a promessa de sono segue adiada, com o bar do hotel como ponto para gastar tempo quando o quarto não resolve.

De madrugada, Bob e Charlotte se encontram por acaso no bar do hotel de luxo, e a situação não precisa virar acontecimento grande para ter efeito. Dois insones ocupam o mesmo espaço e continuam ali, com balcão, copo e cadeira marcando o tipo de encontro que não depende de programação. A sinopse já aponta o salto de tempo, em pouco tempo eles se tornam grandes amigos, e isso implica disponibilidade cara, porque amizade se constrói com presença repetida. O custo aparece na unidade mais objetiva possível, mais uma noite sem dormir, mais horas gastas no bar, e menos chance de começar o dia seguinte com energia.

No dia seguinte, a amizade segue como rotina de convivência dentro das condições dadas, sem que o roteiro precise inventar meta, função ou destino. O tempo vira o material principal e se cobra em pequenas contas, com mesa do hotel, relógio e a própria ideia de “conta” voltando como referência do que foi gasto em horas. Eles continuam presos ao mesmo cenário de espera e deslocamento curto dentro do hotel, e isso reforça o preço logístico de estar ali. A decisão central é permanecer por perto quando o sono não vem, e a cobrança é constante em cansaço acumulado, dia após dia, com o bar servindo de lugar para atravessar a madrugada.

Cama, porta e relógio na conta

À noite, o marido de Charlotte aparece como dado de rotina e não como motor de episódio. Ele é fotógrafo, workaholic, e a deixa sozinha o tempo todo, o que obriga Charlotte a administrar a própria espera dentro do hotel. A porta volta como marco simples de ausência e retorno, e a cama como lembrança do que falta, dormir. Giovanni Ribisi entra como presença associada ao trabalho, sem que a narrativa precise ampliar o quadro com explicações de fora. O custo segue no tempo que não volta, noite passando sem companhia e sem descanso, e no esforço de atravessar a solidão sem uma tarefa que organize as horas.

Cedo, quando a insônia de novo junta os dois e mantém os encontros possíveis, “Encontros e Desencontros” fecha no gesto repetido que já vinha cobrando o preço desde o começo. Eles voltam ao bar porque o quarto não entrega sono, e ficam mais uma vez entre cadeira, balcão, copo e mesa, gastando horas acordados. O roteiro não troca isso por solução nem por virada, só mantém a ação simples de aceitar companhia quando o corpo não apaga. A conta final fica no corpo ainda desperto diante da mesa, com o copo parado e o tempo correndo para a manhã.

Filme: Encontros e Desencontros
Diretor: Sofia Coppola
Ano: 2003
Gênero: Comédia/Coming-of-age/Drama
Avaliação: 10/10 1 1
★★★★★★★★★★