Em “Saneamento Básico”, Jorge Furtado parte de um problema banal para mostrar como a burocracia pode ser tão absurda quanto criativa quando alguém decide enfrentá-la. Em Linha Cristal, pequena comunidade da serra gaúcha, a urgência é concreta: construir uma fossa para tratar o esgoto da vila. Marina (Fernanda Torres), Joaquim (Wagner Moura) e Silene (Camila Pitanga) acabam no centro dessa missão nada glamourosa, que rapidamente esbarra em prazos, carimbos e cofres vazios.
A primeira tentativa é direta. A comissão de moradores vai até a subprefeitura, apresenta o pedido e escuta o óbvio constrangedor: a obra é necessária, mas não há dinheiro disponível naquele momento. A resposta não é hostil, apenas engessada, e isso já diz muito. O problema não é falta de vontade, é o calendário, o orçamento e a rigidez de um sistema que reconhece a urgência, mas não se mexe. A consequência é imediata: ou a vila espera indefinidamente, ou encontra outro caminho.
Esse caminho surge quase por acaso, quando uma verba esquecida entra na conversa. Há dinheiro disponível, mas ele só pode ser usado para a produção de um vídeo de ficção. Nada de obra, nada de saneamento. Só cinema. O detalhe burocrático vira oportunidade prática, e os moradores precisam decidir rápido se aceitam a aposta. O prazo é curto, as regras são claras e o risco de perder tudo é real. A solução encontrada é tão simples quanto engenhosa, e muda completamente o rumo da história.
É nesse ponto que o filme encontra sua veia mais afiada. A ideia de fazer um filme não nasce de vaidade artística, mas de necessidade. Marina assume a organização com uma mistura de pragmatismo e improviso, Joaquim tenta manter tudo minimamente racional, e Silene entra como peça-chave nesse novo arranjo, trazendo energia e disposição para algo que ninguém ali domina. O humor surge do choque entre boa vontade e total falta de preparo técnico, sempre com consequências práticas para o andamento do plano.
A comédia funciona porque nunca se afasta da realidade dos personagens. Cada reunião, cada ajuste no roteiro e cada conversa sobre como “parecer” ficção gera novos atrasos, pequenas tensões e decisões apressadas. O filme não ri dos moradores, ri com eles, expondo como regras criadas à distância se tornam quase surreais quando aplicadas à vida cotidiana. Nada é gratuito: cada escolha interfere no acesso ao dinheiro e aproxima ou afasta a chance de resolver o problema inicial.
Há também espaço para relações pessoais se reorganizarem nesse processo. Laços se estreitam, atritos aparecem e algumas alianças se formam mais por necessidade do que por afinidade. Tudo isso acontece de maneira leve, sem dramatização excessiva, sempre ligado às tarefas práticas que precisam ser cumpridas. O romance aparece como consequência da convivência e do trabalho conjunto, nunca como desvio do foco central.
“Saneamento Básico” se mantém atual justamente por não exagerar sua crítica. Jorge Furtado prefere observar do que apontar o dedo. Ele mostra como cidadãos comuns aprendem, na prática, a negociar com regras que não foram feitas pensando neles. O resultado é um filme acessível, espirituoso e muito brasileiro, que transforma um impasse administrativo em motor narrativo e prova que, às vezes, a criatividade é o único recurso realmente disponível.
★★★★★★★★★★



