“O Falsário” acompanha Toni Chichiarelli (Pietro Castellitto), um jovem pintor que chega a Roma nos anos 1970 acreditando que talento e persistência bastariam para abrir portas. Dirigido por Stefano Lodovichi, o filme deixa claro desde cedo que essa aposta é frágil. O circuito artístico que Toni encontra é fechado, burocrático e pouco interessado em novos nomes, o que transforma cada tentativa de inserção em mais um atraso e nenhuma garantia de sobrevivência.
Diante desse bloqueio, Toni passa a circular por espaços paralelos, onde sua habilidade técnica chama atenção por outros motivos. Ele não muda de objetivo, viver da própria arte, mas muda o caminho. A aproximação com uma gangue especializada em falsificação surge menos como desvio moral e mais como decisão prática: ali há demanda, dinheiro e prazos claros. A consequência é imediata: ele ganha recursos e reconhecimento interno, mas perde autonomia e passa a trabalhar sob regras rígidas de sigilo.
Pietro Castellitto constrói Toni como alguém atento, calculista e progressivamente mais seguro de si. Não há impulso heroico nem arrependimento explícito, apenas adaptação. Cada nova tarefa o coloca em posição mais central dentro da operação, ao mesmo tempo em que aumenta a pressão. Quanto melhor ele se torna, mais indispensável fica, e mais difícil se torna sair ileso desse circuito.
Giulia Michelini aparece como uma presença que tensiona esse percurso, representando vínculos afetivos e sociais que não operam segundo a lógica do submundo. Sua personagem funciona como contraponto silencioso, lembrando que escolhas práticas também cobram preço fora do trabalho. Já Andrea Arcangeli integra o núcleo que sustenta a engrenagem da falsificação, reforçando a ideia de grupo como estrutura de proteção, mas também de vigilância constante.
O filme é econômico na forma e direto na narrativa. Lodovichi evita transformar a história em discurso sobre arte ou autenticidade. O interesse está nas ações: negociar, entregar, esconder, repetir. A técnica da falsificação aparece sempre ligada ao tempo e ao risco, quando a espera aumenta, a tensão cresce; quando o prazo encurta, o erro se aproxima. Tudo é mostrado como trabalho, não como espetáculo.
Há momentos de humor seco, quase burocrático, especialmente na maneira como o mercado clandestino reproduz as mesmas hierarquias e vaidades do mercado oficial. A ironia é clara: fora da lei, mas organizado; ilegal, mas profissional. Isso dá ao filme uma leveza pontual, sem nunca tirar o peso das consequências.
“O Falsário” funciona melhor quando observa Toni em ação, lidando com escolhas pequenas que produzem efeitos grandes. Não se trata de glorificar a fraude, mas de acompanhar como um talento encontra espaço onde o sistema permite, e cobra. Ao final, o filme deixa claro que cada avanço teve um custo mensurável, e que viver da própria arte, naquele contexto, nunca foi uma decisão simples.
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