Em “Berlim, Eu Te Amo”, a ação já nasce marcada pelo relógio, alguém entra em cena, cruza uma rua, puxa conversa e precisa decidir rápido se insiste ou recua. Como são dez curtas, o filme vive de arranques sucessivos, e isso cobra um preço fácil de perceber, o espectador investe minutos para entender um rosto e um desejo e logo precisa guardar aquilo e começar de novo. Quando um episódio acerta a mão, a saída rápida deixa gosto de “quero mais”. Quando não acerta, parece que a porta foi fechada antes de a situação render um segundo movimento.
A diferença entre os segmentos não vem só do tema amplo, “diferentes formas de amor” cabe em quase qualquer situação, mas do jeito como cada história amarra vontade e consequência. Em “Berlim, Eu Te Amo”, alguns episódios colocam a escolha na mesa logo de cara, alguém decide procurar, pedir, voltar, e paga ali mesmo, na exposição e no tempo parado esperando uma resposta que pode não vir. Outros param antes de transformar vontade em consequência e terminam quando o conflito ainda está sendo montado, o que deixa a impressão de primeiro ato sem segundo. Quando o curta não entrega o próprio peso, não é mistério, é falta de tempo de tela para a decisão virar perda ou ganho.
Troca de histórias a cada rua
O filme obriga uma troca constante de foco, você aprende um tom, se aproxima de uma relação, ajusta expectativa, e a montagem já exige outro tipo de atenção. Esse vai e vem pode ser prazeroso quando o episódio é direto e objetivo, porque a mudança vira alívio e mantém você alerta. Mas pode cansar quando o episódio depende de detalhe, porque detalhe precisa de repetição, de mais uma fala, de mais uma reação, de mais alguns segundos para a decisão ganhar corpo. A conta é prática, atenção e energia do público são gastas dez vezes, e nem sempre o retorno vem na mesma medida.
Quando Helen Mirren aparece, o filme ganha chão. Ela segura a cena com pausas que obrigam a escutar e com respostas que demoram o suficiente para virar escolha, não enfeite. Seu segmento permite que um olhar e uma frase fiquem em pé sem virar apenas passagem. A personagem faz algo simples, se abre, recua, mede palavras, e paga com exposição e com a chance real de ser ignorada. O tempo curto do episódio vira aliado porque cada silêncio cobra paciência, e o espectador espera junto, sem atalho.
Já Keira Knightley chega com um tipo de urgência que combina com o formato, porque ela costuma transformar ansiedade em ação, não em discurso. O curta em que participa se apoia nessa prontidão, a personagem se move, testa uma aproximação, recalcula o que dizer, escolhe se continua ou se corta o contato. O tempo curto vira faca de dois gumes, a cena tem impulso, mas pode terminar quando o espectador ainda queria ver o peso do passo dado. O melhor está no corpo, no recuo, na tentativa, e no risco de errar em público e ter de seguir adiante, já sem chance de corrigir.
Voz, pausa e escolha no rosto
A direção dividida entre Dianna Agron, Massy Tadjedin e Stephanie Martin amplia a variedade de tons e de prioridades dentro do mesmo pacote. Em alguns momentos, a rua ajuda a empurrar gente para o encontro, com deslocamentos que forçam um “vai agora ou desiste” e com passos dados mais por necessidade do que por romantismo. Em outros, Berlim fica como pano de fundo e o conflito depende quase só de uma frase bem colocada. Essa alternância deixa evidente quais episódios criam situação e quais ficam mais perto de um cartão-postal emocional, bonito, mas leve demais para o corte do personagem doer de verdade.
O roteiro assinado por Dennis Gansel e Dani Levy trabalha com linhas simples, encontros breves, desencontros e reconciliações possíveis, e o melhor do filme aparece quando a escrita gruda o sentimento em um gesto verificável. Quando o episódio começa com alguém querendo algo e termina com a pessoa pagando pelo movimento, nem que seja em minutos de espera, em deslocamento extra ou em constrangimento público, o curta se completa. Quando a história fica só no enunciado do sentimento, sem uma ação que force decisão, ela passa como nota rápida, e o espectador é empurrado para a próxima promessa com a sensação de ter aberto uma porta à toa, sem retorno do investimento do espectador.
Quem já viu outras antologias românticas pode lembrar de “Paris, Eu Te Amo” (2006), que também alterna acertos e quedas e pede disposição para trocar de história sem reclamar da regra do jogo. “Berlim, Eu Te Amo” caminha na mesma linha, mas a diferença de força entre os segmentos aparece com mais barulho. Ainda assim, quando um episódio acerta, dá para sentir o motivo com clareza, alguém decide, se expõe e paga pelo passo, mesmo que pouco. Depois que a tela corta para a história seguinte, dá vontade de voltar ao melhor segmento e ficar mais um minuto naquela espera.
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