Já na abertura, trabalhadores largam oficinas e teares, pegam a estrada e começam a fazer a conta das horas fora do serviço. Eles atravessam estradas irregulares e calculam quanto tempo podem ficar longe para participar de reuniões públicas. A cada saída de casa, a conta volta em forma de fome quando o dinheiro do dia não entra, de pernas pesadas depois de quilômetros e de retorno obrigatório, ainda com tarefa pendente. Em “Peterloo”, política começa quando alguém escolhe sair do turno, encarar a chuva e apostar que a praça vai ouvir.
Mike Leigh monta o relato sem concentrar tudo em um único rosto, e isso muda a atenção do público. Em “Peterloo”, a ação avança por meio de falas em praça, combinados frágeis e decisões tomadas sob vigilância. Sem um protagonista tradicional para puxar a mão do espectador, o interesse vai para o esforço de manter gente diversa no mesmo ponto, no mesmo horário, com o mesmo combinado. A cada encontro, surgem tarefas simples e caras em tempo e energia, como repetir recados, combinar rotas, acalmar discussões e segurar a impaciência de quem quer resposta já, mesmo sem ter como garantir segurança.
Reuniões em praça aberta
Em um dos polos, Rory Kinnear assume a função de figura institucional, alguém que circula entre autoridades e converte conversa em ordem pronta para execução. Sua presença dita o ritmo das cenas internas, com reuniões que atravessam a noite e pedem atenção contínua a detalhes de protocolo, de assinatura, de quem manda em quem. O personagem paga em horas sem sono e em deslocamentos repetidos entre salas e corredores, sustentando postura firme enquanto recebe informação incompleta e precisa decidir com gente esperando do lado de fora.
No campo oposto, Maxine Peake encarna uma liderança popular que negocia com a própria fadiga. A atriz constrói uma figura que fala em público, repete argumentos para grupos diferentes e aguenta longos períodos de espera antes de conseguir espaço. A voz falha, os braços ficam ocupados com bilhetes, e o corpo precisa ficar em pé por horas. Para manter o encontro vivo, sua personagem atravessa bairros inteiros, tenta juntar adesões, lida com desconfiança e ainda encontra tempo para ajudar a organizar a próxima conversa, mesmo quando o dia já está gasto.
As cenas de massa são tratadas como trabalho coletivo, não como quadro decorativo de época. Chegar ao ponto de encontro implica coordenação de horários, controle de filas e cuidado com boatos que correm depressa e mudam o humor em minutos. Leigh dedica tempo a esses preparativos e faz o espectador acompanhar a contagem de minutos, a sede de quem não tem água por perto e a irritação de quem foi chamado cedo demais. A organização popular tem pouco recurso e depende de repetição e disciplina, porque basta um grupo se dispersar para a praça esvaziar antes da hora e o combinado desandar.
Cavalaria na praça St. Peter
Do outro lado, autoridades avaliam deslocamentos de tropas, definem rotas e ajustam comandos enquanto observam a concentração crescer, em Manchester, na praça St. Peter. A diferença de recursos vira vantagem prática, porque quem manda age rápido e quem protesta depende de reunião aberta e de concordância coletiva. A disputa passa por decisões simples, como controlar acessos, escolher onde posicionar forças e decidir quanto tempo esperar antes de intervir. Ao mesmo tempo, cada novo aviso obriga os manifestantes a reorganizar a caminhada, recalcular horários e decidir se vale voltar para casa ou insistir, sabendo que o corpo já está no limite.
A duração extensa cobra atenção, mas entrega um retrato paciente de decisões encadeadas e de esforço acumulado. Em vez de encurtar debate em frase de efeito, Leigh insiste no tempo gasto para convencer, no silêncio que antecede uma fala e no trabalho de manter o acordo quando a autoridade responde com rigidez. A narrativa prefere acompanhar como a mobilização consome horas e coordenação, e como a repressão se apoia em ordens curtas e execução rápida.
O percurso do público acompanha essa mesma conta. Assistir a “Peterloo” envolve aceitar repetição, ouvir argumentos parecidos ditos a plateias diferentes e notar como um encontro só acontece depois de muita tentativa, de mensagens levadas a pé e de gente que chega atrasada por causa do trabalho. Quando a multidão finalmente se junta, o longa já registrou o quanto custou colocar cada pessoa ali, entre deslocamento, espera e falta de descanso. E fica um gesto simples na memória, alguém conferindo o horário, respirando fundo e seguindo a pé, porque ainda há um caminho inteiro de volta.
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