Bruce Springsteen canta que saiu para um passeio com uma garota, e, minutos mais tarde, dez pessoas inocentes estavam mortas. Bem, não era Bruce Springsteen, mas Jeremy Allen White, o que é quase igual. Suas impressões acerca de um mundo perverso, irascível, de gente adoecida e violenta, tornaram-se “Nebraska” (1982), uma de suas canções mais célebres e mais ardilosas, um lirismo paradoxal e incômodo. Até que se chegue a esse momento, “Springsteen: Salve-me do Desconhecido” refaz alguns dos passos do músico, recapitulando a infância humilde em Freehold, Nova Jersey, até chegar aos confrontos existenciais de um astro sensível, interessado em muito mais do que fama e fortuna.
A multidão de um homem só
A fotografia em preto e branco de Masanobu Takayanagi leva o espectador à Freehold de 1957, onde um garoto de oito anos vai com a mãe buscar o pai alcoólatra no bar. Horas depois, Douglas Frederick Springsteen (1924-1998) parte para cima da esposa, Adele Ann (1925-2024), mas é contido por aquela criança adelgaçada, um instintivo ato de bravura que Douglas, o Dutch, faz questão de reconhecer. O diretor Scott Cooper e o corroteirista, o músico Warren Zanes, autor da biografia homônima, contrapõem esse momento a um dos shows da turnê The River Tour, em Cincinnati, dali a 24 anos, com um Springsteen vigoroso, elétrico, suando em bicas no palco e fora dele, em inegável ascensão e ainda sem saber que a glória pode custar caro a alguém como ele. Aclamado por “Hungry Heart” (1980), ele aluga uma casa em Colts Neck, permite-se luxos como ter um Camaro Z28, preto, estalando de novo, e se debruça sobre composições pelas quais a CBS, sua gravadora, não terá interesse. Mas Springsteen não é um deslumbrado.
Nasce uma estrela
Cooper e Zanes veem “Nebraska” não como um momento de iluminação artística, mas de catarse, de um Springsteen exorcizando seus fantasmas mais insistentes. Ele lê “The Complete Stories” (1971), a coletânea de histórias breves de Flannery O’Connor (1925-1964), liga a televisão, zapeia os canais e depara-se com uma cena de “Terra de Ninguém” (1973), o clássico de Terrence Malick sobre um casal de desajustados que deixa um rastro de destruição e morte, e registra seu espanto num gravador Portastudio TEAC 144, que guardará mais sete canções. Enquanto isso, ele tenta ser um sujeito como outro qualquer, engata um namorico com Faye Romano, irmã de um ex-colega de escola e garçonete no diner que ele costuma frequentar, e esse é o respiro de que o público necessita para digerir tantas minudências e tantas emoções. Versátil, White sempre dá um jeito de evidenciar a atribulação mental do personagem, mas também não descuida das entrelinhas, habilidoso ao procurar tons mais amenos para o Springsteen apaixonado. A relação do cantor com Faye, uma mãe solo que leva a filha pequena a alguns dos encontros com seu ídolo-namorado, dilui a tensão do enredo na medida certa, e é uma grata surpresa a química com Odessa Young. Os lances que retratam as conversas entre Springsteen e o empresário e confidente Jon Landau, operam nessa mesma frequência, e Jeremy Strong vai num magnífico crescendo, encarnando o superego do astro sem julgamentos.
Coração faminto
Talvez não haja mais lugar para artistas como Bruce Springsteen. Enquanto o Bob Dylan de “Um Completo Desconhecido” (2024), dirigido por James Mangold, precisa da escuridão, Springsteen urge a certeza de que pode ser amado, uma versão em cores daquele garotinho de Freehold que assistia a “O Mensageiro do Diabo” (1955), de Charles Laughton (1899-1962), com o pai bêbado e esquizofrênico. “Ele será o novo Elvis”, havia quem dissesse a seu respeito. Felizmente não foi.
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