“O Curioso Caso de Benjamin Button”, dirigido por David Fincher, acompanha Benjamin Button (Brad Pitt), um homem que envelhece de trás para frente, enquanto tenta construir uma vida possível em um mundo organizado por calendários normais. Abandonado ao nascer, ele é acolhido por Queenie (Taraji P. Henson), que assume a criação sem promessas heroicas, apenas com cuidados básicos e regras claras. Desde cedo, o corpo de Benjamin impõe limites visíveis, e o efeito imediato é social: ele ocupa espaços que não foram feitos para ele.
A casa de repouso onde cresce funciona como abrigo e barreira. Ali, Benjamin aprende convivência, rotina e perda antes da hora. Não há infância tradicional, apenas observação constante do tempo agindo sobre os outros. Essa experiência o torna prático, atento e menos iludido, mas também restringe seu acesso ao mundo exterior, que demora a aceitá-lo.
Quando Benjamin passa a circular fora da instituição, ele busca trabalho e pertencimento como qualquer adulto. Consegue emprego em um rebocador, entra em contato com outros lugares e aprende a se mover por regras simples: cumprir horários, respeitar hierarquias, aceitar riscos. O trabalho lhe dá autonomia financeira e posição social, ainda que instável, porque seu corpo continua mudando em ritmo próprio.
É nesse período que Daisy (Cate Blanchett) entra em sua vida. Bailarina, ela investe tudo no corpo como ferramenta de trabalho, enquanto Benjamin precisa constantemente recalcular o seu. A relação entre os dois se constrói em encontros possíveis e desencontros inevitáveis, sempre mediada por decisões práticas: onde morar, quando ficar, quando seguir adiante. O tempo nunca está do lado dos dois ao mesmo tempo.
Amar com prazo
O romance entre Benjamin e Daisy não se apoia em promessas eternas, mas em tentativas honestas. Eles se aproximam quando as circunstâncias permitem e se afastam quando o custo se torna alto demais. O obstáculo não é falta de sentimento, mas o descompasso entre fases de vida que nunca coincidem por completo. O efeito disso é uma relação marcada por escolhas difíceis e consequências claras.
Há humor pontual nessas situações, especialmente quando Benjamin é tratado como velho em contextos jovens, ou jovem em ambientes que exigem maturidade. Esses momentos aliviam a tensão e reforçam o absurdo cotidiano da situação, sem transformar o filme em fábula leve demais.
O tempo como regra, não metáfora
Fincher evita explicações excessivas e prefere mostrar os efeitos do tempo nas decisões. A montagem controla o ritmo dos encontros e separações, sem sublinhar emoções. O que importa é sempre o impacto prático: um trabalho aceito, uma oportunidade perdida, um vínculo que precisa ser adiado. A fantasia nunca apaga a materialidade das escolhas.
Benjamin aprende a arquivar sua vida em cartas, fotografias e memórias organizadas. Cada retorno ao passado traz conforto e risco ao mesmo tempo. Reaproximar-se custa algo, e seguir em frente também. O filme observa essas decisões com distanciamento, mas sem frieza.
Viver é aceitar limites
Em poucos gestos, o filme deixa claro que Benjamin não busca corrigir sua condição, apenas viver dentro dela. Daisy, por sua vez, aprende a impor limites para proteger sua própria trajetória. Não há vilões nem soluções mágicas, apenas pessoas tentando preservar algum controle sobre o tempo que lhes resta.
Fica a ação concreta: cuidar, organizar, escolher ficar ou partir. “O Curioso Caso de Benjamin Button” não fala sobre vencer o tempo, mas sobre aceitar seus termos e pagar o preço de cada decisão tomada.
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