“Armadilha” começa com um gesto simples e reconhecível. Cooper leva a filha para um grande show e tenta cumprir o ritual de qualquer pai que só quer ver a menina feliz, acompanhar sem estragar e ficar por perto sem invadir. Em poucos minutos, ele percebe que há policiais demais, barreiras demais e olhos atentos demais. A primeira decisão é miúda e já tem preço. Em vez de ir direto ao assento, ele circula, pergunta, observa e tenta juntar peças sem chamar atenção. Josh Hartnett sustenta esse início com um controle que passa pelo corpo, sorrir na hora certa, responder pouco, manter o passo constante para não parecer alguém fugindo.
Shyamalan organiza o local como uma sequência de acessos, crachás e portas que abrem para alguns e travam para outros. O suspense vem do caminho que encurta e do caminho que some, uma porta fechada obriga a dar meia-volta, um segurança parado no ângulo errado muda a rota. A multidão vira obstáculo físico, e a equipe do show vira filtro humano que decide quem passa e quem volta. Em vez de apostar em correria sem pausa, o diretor insiste no atrito do cotidiano, fila que anda devagar, verificação que demora, segurança que pede mais uma informação. Cooper avança um corredor, mede a distância até um funcionário, testa outra passagem e paga com minutos perdidos e energia gasta em manter a cara de quem só está procurando o lugar.
Show lotado, filha ao lado
A filha não fica só como companhia simpática, ela mexe no plano a cada nova mudança de rota. A adolescente quer aproveitar o show, quer cantar, quer se aproximar, quer registrar tudo, e Cooper precisa negociar sem poder dizer o que está em jogo. Ariel Donoghue dá verdade a essas cobranças, sobretudo quando a personagem percebe que o pai está duro demais e ausente demais para uma noite que deveria ser leve. O preço dessa negociação aparece em detalhes concretos. Ele perde chances de falar com pessoas úteis porque precisa acompanhar a garota, perde segundos olhando para o palco quando deveria estar olhando para saídas, e perde fôlego segurando a ansiedade para não entregar nada no rosto.
O palco, por sua vez, não é só pano de fundo bonito. O som alto engole conversas, obriga personagens a se aproximarem para trocar uma frase e aumenta a chance de alguém notar um gesto fora do padrão. Luzes e telões ajudam e atrapalham ao mesmo tempo, às vezes indicam um caminho, às vezes expõem quem está andando na direção errada. Saleka Shyamalan aparece com presença de estrela pop e dá credibilidade ao espetáculo, reforçando a ideia de que aquele lugar tem rotina, equipe e regras próprias. Nessa mistura de show convincente com corredores vigiados, a história ganha corpo porque cada passo precisa caber no barulho, na iluminação e no olhar de quem está trabalhando ali.
Nem tudo tem a mesma firmeza. Em alguns trechos, a facilidade com que informações circulam entre pessoas que acabaram de se conhecer pede uma dose extra de boa vontade. Há também momentos em que a operação policial parece grande demais para ser tão pouco precisa, e certas reações parecem rápidas demais para um ambiente tão controlado. O roteiro encurta caminhos para manter a trama andando, mesmo quando alguns movimentos pediam um preparo a mais. Quando “Armadilha” se apoia demais em coincidências, o suspense perde pegada porque a pergunta deixa de ser como ele sai dali e vira por que deixaram aquilo se organizar daquele jeito.
Crachás, portas e corredores vigiados
Hartnett carrega o filme porque está sempre fazendo algo que tem consequência. Ele escolhe mentir e paga com mais cuidado para sustentar a mentira, um detalhe errado chama um olhar, e um olhar pode virar abordagem. Ele escolhe se aproximar de alguém e paga com exposição, com gente observando, com a necessidade de improvisar uma frase convincente no meio do barulho. Ele escolhe correr um risco e paga com suor, com a perda de controle sobre onde a filha está e com a obrigação de voltar ao papel de pai disponível antes que ela faça uma pergunta incômoda. Quando o suspense está no ponto, ele nasce dessa conta prática, quanto tempo dá para ficar fora, quantas portas ainda restam, quantas pessoas estão prestando atenção.
Shyamalan se mostra à vontade ao construir tensão a partir de circulação e acesso, sem depender de truques grandiosos. O interesse está no espaço e no mapa que Cooper precisa montar enquanto anda, sempre com gente no caminho e regras mudando conforme ele se move. Quando a direção mantém o foco no que Cooper consegue ver e no que ele tenta esconder, a cena segura pelo concreto. Um passo errado obriga dois passos para trás, uma conversa curta exige atravessar um mar de gente, e um pedido de ajuda cobra uma explicação que ele não pode dar por inteiro. É uma lógica de tentativa e erro em que cada tentativa cobra espera, deslocamento e a chance de alguém lembrar daquele rosto.
O que fica é a sensação de um jogo em que ninguém ganha de graça, nem mesmo quando parece ter vantagem. A cada vez que Cooper escolhe uma rota, ele paga com acesso negado, com uma fila que não termina ou com a necessidade de inventar outra versão dos fatos sem gaguejar. A cada vez que tenta virar parte da paisagem, ele precisa continuar pai presente, atento ao palco e disponível para a filha, mesmo com a cabeça presa numa porta e num segurança logo adiante. E, quando o corredor muda e a saída some, ele ajeita o sorriso, encosta no fluxo da plateia e entra na próxima fila como se fosse só mais um.
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