“A Justiceira” começa com um ataque que destrói uma família diante de um parque e empurra Riley para um luto que não encontra resposta no balcão do Estado. Ela acorda de um coma e percebe que, além da dor, terá de encarar a burocracia, os acordos de bastidor e a sensação de que ninguém vai pagar a conta. A decisão vem cedo e sem enfeite. Em vez de implorar por sentença e audiência, ela passa anos se preparando para caçar os responsáveis. Jennifer Garner entra nessa trilha com presença dura, segurando a personagem quando a raiva pede pressa, mas o corpo exige cuidado.
O roteiro inclui o preparo na conta e não deixa esse período virar apenas uma legenda. Riley precisa juntar dinheiro, achar lugares discretos para treinar, conseguir armas e montar uma rotina que não chame atenção, o que inclui trocar de endereço e cortar contato com qualquer pessoa que possa virar alvo por tabela. A cada etapa, a história puxa a personagem para o concreto. Treino pede repetição, repetição pede horas, e horas pedem discrição, porque ela não pode aparecer no mesmo lugar sempre nem contar com ajuda se algo der errado. Essa escolha transforma a vida em uma sequência de esperas, deslocamentos e checagens que drenam energia antes mesmo do primeiro confronto.
Lista de alvos e saídas
Quando ela volta à cena no aniversário da tragédia, a lista de alvos não se limita aos atiradores. Riley mira a gangue, os advogados que ajudaram a soltar os criminosos e os policiais que fecharam os olhos, ampliando o terreno e multiplicando o risco. Cada avanço exige observar rotina, escolher a janela de ação e sair rápido, porque ficar no local consome minutos que ela não tem. O suspense vem desse passo a passo, entrar, agir, recolher o que precisa e sumir, sabendo que qualquer erro encurta a fuga e aumenta a chance de identificação. A vingança vira tarefa com horário e trajeto, e uma falha pequena cobra horas de correção depois.
Do outro lado, a investigação tenta reagir ao rastro de violência sem conseguir adivinhar onde ela vai bater em seguida. John Ortiz, como parte do núcleo policial, dá peso às cenas em que a lei tenta retomar o controle e, ao mesmo tempo, tropeça em interesses internos e em gente disposta a vender acesso por conveniência. A resposta oficial vira corrida de telefonemas, reuniões apressadas e patrulhamento em áreas onde a confiança já foi corroída. O longa ganha quando sugere que a perseguição não é só à vigilante, mas também à cadeia de facilidades que manteve criminosos soltos e protegidos.
A direção de Pierre Morel prefere espaços urbanos simples e perigos diretos, corredores estreitos, estacionamentos, casas mal iluminadas, becos com poucas saídas. A câmera fica próxima do corpo e valoriza pancada, queda, respiração curta e a pausa obrigatória para se recompor entre um ataque e outro. Morel já havia trabalhado esse tipo de ação enxuta em “Busca Implacável” (filme de 2008, dirigido por Pierre Morel), e aqui volta a priorizar cenas em que dá para entender quem avançou, quem travou e quem perdeu segundos. Quando o longa escorrega, é por depender de coincidências em momentos pontuais e por empurrar alguns antagonistas para o exagero, o que reduz a credibilidade de certas reações.
Corredores, estacionamentos, casas
A narrativa não trata vingança como prêmio sem cobrança. Riley escolhe agir em lugares com gente por perto, escolhe carregar arma, escolhe voltar noite após noite, e cada uma dessas escolhas reduz a margem para hesitar. A conta vem no isolamento, na falta de descanso e na obrigação de manter a cabeça funcionando quando o corpo pede pausa. Garner sustenta bem esse retrato de alguém que não quer ser compreendida, quer concluir uma tarefa, e precisa engolir medo, fome e tremor para não perder o controle na hora errada.
Há um padrão que se repete e pode cansar, porque parte da estrutura se apoia em preparação, ataque e repercussão em sequência. Mesmo assim, “A Justiceira” evita diluir a violência com humor deslocado ou romance de conveniência, e mantém o foco na jornada de uma mulher que trocou vida comum por uma missão que consome tudo ao redor. O longa não compra tempo com discursos longos. Prefere seguir a trilha concreta das escolhas, do que dá certo por pouco e do que dá errado por segundos.
Para fechar essa conta sem promessa de alívio, o roteiro insiste em detalhes de sobrevivência já colocados desde o preparo. Riley dorme pouco e mal, come quando dá, mantém a casa provisória pronta para abandono rápido e revisa rotas como quem revisa senha, o tempo todo. Ela limpa feridas, repara equipamento, troca de roupas e ajusta o plano de fuga com pressa, porque qualquer atraso vira exposição. A imagem que fica não é a de vitória confortável, e sim a de alguém que apaga a luz, confere o bolso e sai sem fazer barulho.
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