O cinema turco viveu seu auge entre as décadas de 1950 e 1970, impulsionado pelo sistema industrial de Yeşilçam, antes de entrar em colapso nos anos 1980, após o Golpe Militar de 12 de setembro. Não foi apenas uma perda de público ou prestígio: foi um desmonte estrutural, marcado por censura, perseguição a artistas, autocensura e a quase extinção de uma indústria cinematográfica organizada. “Don’t Let Them Shoot the Kite”, lançado em 1989, surge como um raro suspiro de resistência dentro de um sistema opressor cuja lógica só começaria a se enfraquecer, lentamente, a partir dos anos 2000.
Dirigido por Tunç Başaran, o longa é um dos filmes mais belos, sensíveis e discretos do cinema turco, destoando frontalmente do melodrama tradicional que dominou décadas anteriores. Inspirado na novela homônima de Feride Çiçekoğlu, publicada em 1986, o filme carrega um peso autobiográfico decisivo: a autora foi presa política após o golpe de 1980 e mistura, no texto original, fragmentos de suas vivências reais com a ficção.
Nesse drama de atuações carismáticas e profundamente humanas, Inci (Nur Sürer), agora em liberdade, observa a cidade do alto de um morro. O enquadramento aberto sugere alívio e possibilidade, mas não sem melancolia. Sentada sobre uma pedra, ela se deixa levar pelas lembranças do tempo de prisão. A partir desses flashbacks, acompanhamos a história sobretudo pelo olhar de Barış (Ozan Bilen), um garoto de apenas cinco anos que vive encarcerado com a mãe, Fatma (Füsun Demirel), presa após assumir um crime que não cometeu para livrar o marido, um homem ausente, que nunca os visita e parece ter seguido a vida sem culpa ou remorso.
Dentro da cadeia, há um pequeno pátio onde o céu só pode ser visto de forma quadrada, fragmentada. Barış observa os pássaros e pede que eles levem ao pai uma mensagem, implorando para que vá visitá-lo. O menino funciona como um contraponto vital dentro da prisão: é a encarnação da inocência, da fragilidade e da imaginação em um ambiente frio, rígido e claustrofóbico. Inci não é sua mãe, mas torna-se sua melhor amiga ali dentro, é quem lhe apresenta os livros, amplia seu olhar e o faz imaginar que a vida é maior do que aqueles muros. Se Barış recebe de Inci doçura e paciência, é ele quem transforma os dias dela em algo menos áspero, devolvendo sentido a uma existência suspensa.
Apesar de conflitos pontuais entre algumas mulheres, o filme constrói um forte senso de comunidade. Elas cozinham juntas, conversam, dançam, escutam rádio, compartilham desabafos e aguardam ansiosamente por audiências que talvez reduzam suas penas. O drama se mistura a momentos de leveza quase cotidiana, criando uma oscilação constante entre esperança, indignação, medo e afeto. A fotografia de Erdal Kahraman aposta em tons terrosos e iluminação naturalista, com enquadramentos que reforçam o confinamento, mas também destacam o companheirismo e a humanidade que sobrevivem naquele espaço.
Quando Inci pinta uma pipa no chão e diz a Barış que um dia ela estará voando no céu, a metáfora da liberdade se revela ao mesmo tempo poética e frágil. Sonhar, ali, é um gesto de resistência. Imaginar um futuro melhor torna-se um ato quase subversivo dentro de um sistema que reprime até o direito de imaginar. “Don’t Let Them Shoot the Kite” é um filme em que, aparentemente, pouco acontece, e, ainda assim, tudo acontece. É preciso manter o coração aberto para perceber que, no cinema, o que realmente importa não é a grandeza do orçamento, mas a força silenciosa da mensagem.
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