Discover
Dez minutos fora do lugar e a mente entra em colapso — Ryan Reynolds em um filme na HBO Max que te prende pelo desconforto Divulgação / Warner Bros.

Dez minutos fora do lugar e a mente entra em colapso — Ryan Reynolds em um filme na HBO Max que te prende pelo desconforto

Frank Allen vive de vender organização. Ele sobe ao palco, entrega conselho com sorriso treinado e sustenta a rotina como se cada minuto tivesse dono. A abertura pede hábito, não explicação. Ele acorda, confere lista, confere relógio, encaixa tarefas sem folga. Quando algo sai do lugar, o preço vem rápido, mais espera, mais deslocamento corrido, mais ligação refeita, mais energia gasta em ajuste. Ryan Reynolds interpreta esse homem com o corpo em alerta, como quem já calcula a próxima desculpa antes de alguém perguntar.

O dia muda quando um ajuste pequeno desloca tudo. A esposa adianta o relógio dele em dez minutos, numa brincadeira que parece inofensiva, e, a partir daí, cada compromisso começa a escapar. “A Teoria do Caos” prefere o efeito dominó do cotidiano. Frank decide “compensar” o tempo a cada esquina, corta caminho, apressa conversa, tenta reagendar na marra. O custo se acumula em horas que somem, em fome empurrada para depois, em telefonemas repetidos, em idas e vindas que multiplicam portas fechadas e reuniões que já começaram.

Conversa adiada dentro de casa

O que sustenta o conflito não é só o relógio, é a vida em casal atravessada por horários. A brincadeira nasce de um gesto íntimo, e o roteiro coloca o protagonista diante de um problema que ele não resolve com planilha. Emily Mortimer segura a esposa com firmeza silenciosa, porque ela observa, escolhe quando insistir e quando deixar que ele corra com o próprio peso. Quando Frank reage como quem foi sabotado, a casa vira lugar de acerto de contas pequeno, frase interrompida, pedido de atenção feito na hora errada. O preço aqui é simples e doloroso, conversa empurrada para amanhã, confiança riscada por pressa, presença trocada por agenda.

Marcos Siega dirige com olho para a comédia de situação, apostando em entradas e saídas rápidas, encontros atravessados e contratempos que empurram o protagonista para onde ele não queria estar. O riso nasce quando o esforço de coordenação falha e ele precisa pagar com mais deslocamento, mais fôlego, mais pedidos de desculpas. A câmera e a montagem acompanham a correria sem transformar tudo em exibicionismo. O que fica na frente são passos apressados, telefonemas em sequência, tentativas de recuperar um minuto que já foi embora.

Lista na mão, sono a menos

O texto de Daniel Taplitz se apoia numa pergunta direta. O que acontece quando alguém constrói a identidade em cima de ordem e descobre, num dia ruim, que não tem reserva para o improviso. Frank não perde apenas a hora, ele perde acesso fácil às pessoas, perde a chance de chegar antes, perde a vantagem de prever o próximo movimento. A cada decisão, ele gasta atenção como se fosse bateria, alterna entre ouvir alguém até o fim ou cortar caminho, entre esperar dois minutos ou atropelar a conversa. Não há glamour nesse esforço, há cansaço, frase engolida, e uma noite que promete chegar com menos sono do que ele planejou.

A mistura de humor e drama lembra, de longe, “Feitiço do Tempo” (1993, direção de Harold Ramis), mas só no ponto de partida, um homem obrigado a encarar a própria rigidez diante de um dia que não obedece. Aqui não existe repetição de datas nem truque grandioso. Existe um único dia que sai do trilho e obriga o protagonista a lidar com trabalho, família e desconhecidos que não têm motivo para aliviar o atraso dele. O preço é o de qualquer adulto quando tudo aperta, menos paciência, menos gentileza, menos espaço para errar, e mais tempo perdido tentando explicar o que ninguém quer ouvir.

É nessa escala miúda que “A Teoria do Caos” acerta melhor. O longa rende quando troca frase pronta por situações em que uma decisão pequena vira uma sequência de remarcações, sem precisar esticar explicação. Em alguns trechos, a ideia se repete e certas passagens parecem alongadas para preencher caminho, mas o conjunto mantém leveza sem virar punição. O fecho que o filme busca não depende de tese, depende de gesto, um homem que, por um instante, guarda a lista, silencia o celular e deixa o outro terminar a frase.

Filme: A Teoria do Caos
Diretor: Marcos Siega
Ano: 2007
Gênero: Comédia/Drama/Romance
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★