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Você dá play nesse filme na HBO Max “só pra relaxar”… aí o “cara de Breaking Bad” rouba tudo — e você termina rindo em modo pânico Hopper Stone / Warner Bros. Entertainment

Você dá play nesse filme na HBO Max “só pra relaxar”… aí o “cara de Breaking Bad” rouba tudo — e você termina rindo em modo pânico

A premissa de “A Noite do Jogo” começa do jeito mais reconhecível, mesa arrumada, fichas, regras lidas por cima, provocações entre amigos e aquela vontade infantil de ganhar nem que seja por um ponto. A noite de jogos ali não é só passatempo, é o momento em que cada casal tenta parecer mais rápido, mais esperto, mais afiado na frente dos outros. Quando entra a proposta de uma encenação policial, a diversão vira tarefa, seguir uma trilha, pegar um recado, encontrar alguém num horário apertado, e a comédia nasce da passagem brusca entre a segurança da sala e a rua que exige fôlego, atenção e porta que não abre.

Max e Annie, o centro do tabuleiro, carregam uma mistura de obsessão por vencer e necessidade de provar que estão bem. Jason Bateman interpreta Max como alguém que soma pontos até quando ninguém está anotando, e esse traço empurra o casal para escolhas que poderiam ser evitadas com um simples “vamos embora”. Eles não vão embora. Preferem insistir, discutir regra no meio da calçada, voltar para buscar um objeto esquecido, perder minutos preciosos em uma decisão boba. A partir daí, cada piada vem com tarifa, respiração mais curta, roupa amassada, celular sem bateria, e a sensação de que desistir custaria mais do que encarar mais uma rodada no escuro.

Calçada, celular e volta

A chegada de Brooks troca a brincadeira de sala por um evento que exige deslocamento, horário e pose. Kyle Chandler faz o irmão como quem gosta de comandar a atenção da mesa e sabe cutucar a vaidade do grupo com um sorriso confiante. O sequestro encenado vira a armadilha perfeita para gente competitiva, porque ninguém quer ser o primeiro a admitir que não entendeu as regras. A decisão coletiva de seguir adiante, mesmo sem entender tudo, empurra os seis para uma sequência de idas e voltas pela cidade, cada parada com chance de dar errado e cada retorno com a impressão de que o relógio correu sem entregar pista inteira.

O longa rende mais quando troca conversa grande por emergência pequena. Não precisa alguém anunciar nada em voz alta; basta um carro parado no lugar errado, uma campainha tocada tarde demais, um corredor estreito que obriga alguém a se encolher sem ter onde colocar as mãos. Os personagens acabam em apartamentos, estacionamentos, bares e ruas pouco acolhedoras para quem decidiu brincar de detetive. O humor aparece quando eles tentam manter a “pose de jogo” enquanto lidam com coisas concretas, joelho ralado, copo derrubado, sapato errado para correr, e o esforço de falar baixo quando o coração está batendo alto.

A direção de Jonathan Goldstein e John Francis Daley mantém a confusão legível, e isso faz diferença porque a comédia depende de saber quem está onde e por que está correndo para o próximo lugar. A câmera acompanha entradas e saídas com clareza, dá tempo de entender o espaço e deixa o grupo tropeçar sem virar borrão. Há um prazer específico em ver como um objeto simples ou uma informação pela metade vira motivo para mais um deslocamento, mais um retorno, mais uma tentativa frustrada de “seguir a pista”, e a piada não fica só no comentário esperto, fica também na corrida, na escada, na porta errada e na volta ao ponto de partida.

Campainha, corredor e fôlego

Rachel McAdams dá a Annie uma energia que mistura doçura e teimosia, e isso impede que a personagem vire apenas acompanhante de Max. Annie também quer vencer, também quer provar algo, e muitas vezes é ela quem empurra o grupo para frente quando alguém hesita. Em várias situações, McAdams faz graça com o corpo, com o jeito de entrar num espaço sem saber onde pisar, com a tentativa de improvisar uma explicação para estranhos, com a decisão de continuar andando mesmo depois de perceber que roupa e cabelo já perderam qualquer chance de normalidade. Ali ela gasta fôlego e tempo tentando manter o rosto firme enquanto a noite pede recuo.

O grupo de amigos funciona como motor de confusão porque cada casal traz uma mania pequena que vira problema grande quando a rua cobra coordenação. Dentro de uma sala, todo mundo é genial; na rua, com barulho, com pressa e com medo de errar, aparecem vaidade, insegurança e aquela necessidade de “não perder” nem que seja por orgulho. “A Noite do Jogo” aproveita isso para criar situações em que ninguém consegue acertar o básico, quem pega o carro, quem guarda o endereço, quem segura o celular para checar o número, quem fala com o estranho, quem confirma a porta certa. E quando a coordenação falha, o filme não corta caminho, insiste na bagunça prática, mais um quarteirão, mais uma discussão, mais um pedido de desculpas feito correndo.

A melhor lembrança que o longa deixa não vem de frase pronta, vem de um cansaço muito concreto, o grupo ofegante, roupa marcada da noite, mãos ocupadas com o que sobrou do “jogo”, e alguém parando um segundo para alisar a barra da camisa, apagar a tela do celular e tocar a campainha de casa.

Filme: A Noite do Jogo
Diretor: John Francis Daley e Jonathan Goldstein
Ano: 2018
Gênero: Ação/Aventura/Comédia/Crime/Suspense
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★