A história começa com deslocamento e tarefa, três cavaleiros contratados para abrir uma estrada na Terra do Fogo, em território chileno, e impor uma tal “civilização” que chega junto com cercas, armas e um mapa desenhado por gente que não vai pisar ali. O grupo cavalga por dias, calcula água, divide munição, negocia passagem, e entende que a missão não é só técnica. O roteiro coloca ação antes de discurso, primeiro vem a ordem, depois a decisão de obedecer, em seguida a cobrança vem em forma de distância, frio e tempo perdido, e por trás disso está o recado que ninguém quer dizer em voz alta.
“Os Colonos” aperta quando põe o poder na mão de quem está sujo de estrada, um homem confere o bilhete do patrão, outro revisa a arma, outro ajusta a sela e segue porque parar significa gastar água e perder a próxima chance de abrigo. Não há “monstros” fantasiados, há gente comum executando etapas, como se fossem tarefas de um dia comprido. Felipe Gálvez Haberle filma a caminhada como serviço que não termina, com pausas longas e esperas que parecem sempre mais caras do que o previsto. Mark Stanley interpreta o tenente britânico com arrogância de manual, mas precisa pedir cavalo, comida e guia a cada novo trecho, e essa dependência o expõe mais do que qualquer frase de bravura.
Lama, barranco e sela
O trio se move por um território que não se rende à pressa, e o filme insiste no atrito prático, lama, vento, barranco, noite mal dormida, fome que obriga a encurtar conversa e cortar caminho. A violência entra como decisão tomada longe dali e executada ali mesmo, no improviso, sem glamour e sem aviso. Quando a ordem muda de tom, o grupo precisa reorganizar funções, quem atira, quem vigia, quem fala com quem aparece na rota, e cada rearranjo custa coordenação, confiança e minutos de hesitação que viram horas a mais de cavalgada.
Camilo Arancibia dá ao mestiço Segundo uma atenção afiada, de quem enxerga o risco antes e paga antes. Ele entende o idioma local, lê sinais no terreno e percebe a mudança do serviço quando os outros ainda tratam a jornada como “abrir estrada”. O personagem age com cautela por um motivo simples, qualquer palavra errada fecha uma porta, encurta a água disponível e empurra o grupo para trechos mais longos sem abrigo. Ele vira ponte o tempo todo, e ser ponte exige ficar acordado, engolir humilhação e escolher com cuidado quando responder para não transformar uma parada em perseguição.
Há também o componente estrangeiro que trata a missão como emprego e aventura, e o filme acerta ao apontar como a mão de obra da violência circula sem precisar de raiz. O mercenário norte-americano, vivido por Benjamin Westfall, trabalha com frieza de quem calcula ganho e perda na ponta do lápis, medindo risco, medindo recompensa, reduzindo gente a obstáculo de rota. Ele não precisa discursar para revelar caráter, basta a forma como limpa a arma, como empurra o grupo a seguir e como decide encurtar caminho mesmo quando isso empurra outros para a fome e para a fuga.
Mapa, recado e rastros
O filme prefere acompanhar gestos repetidos e escolhas miúdas, observar, esperar, escolher ponto de passagem, contar o que sobra na sacola, decidir se dá para acender fogo e quanto tempo dá para ficar parado sem perder o dia inteiro. Esse tipo de cena dá peso ao que está em jogo, ocupar não é palavra bonita, é hora consumida, deslocamento caro e trabalho que arrebenta o corpo. Quem manda raramente aparece para sujar as mãos, e essa distância vira parte do mecanismo de obediência, porque o grupo discute entre si, erra caminho, volta, gasta energia e, quando percebe, já está fazendo o que foi contratado para fazer.
Quando a violência acontece, ela aparece ligada a comando e pagamento, não a heroísmo. Em vez de “coreografar” morte, o filme encosta no lado prático do ato, preparar, executar, limpar, calar, esconder rastros e tocar a marcha como se fosse apenas mais um trecho do serviço. Isso pesa porque o custo fica no corpo, olhos ardendo de sono, mãos ocupadas, tempo que some, rotas que se fecham, e a sensação de que recuar não é opção simples quando há um patrão esperando resultado e um grupo que já atravessou longe demais para voltar igual.
Sem buscar conforto, “Os Colonos” entrega um drama duro, interessado em acompanhar como ordens atravessam fronteiras e chegam ao chão como trabalho terceirizado, dia após dia. O longa cresce quando troca discurso por rotina, quando insiste na fome, no frio e na distância como parte do pagamento real. E a lembrança que fica não é uma tese, é um gesto repetido, a mão volta ao couro da sela, aperta, e o cavalo segue.
★★★★★★★★★★


