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Um barco preso nos galhos, um homem escondido e um acordo impossível — no Prime Video Divulgação / Lionsgate

Um barco preso nos galhos, um homem escondido e um acordo impossível — no Prime Video

Ellis e Neckbone entram na ilha como quem atravessa um limite que os adultos evitam. Remam em silêncio, pisam na lama, sobem no casco encalhado e vasculham o lugar em busca de sinal de dono. Tye Sheridan dá a Ellis um entusiasmo que parece coragem, mas tem pressa de ser reconhecido. Quando encontram o homem escondido, o impulso de recuar disputa espaço com a vontade de voltar no dia seguinte. A partir desse encontro, “Amor Bandido” põe os meninos diante de um acordo que não cabe na rotina. Dá para prometer ajuda e ainda chegar em casa com a mesma cara de sempre?

O primeiro trato com Mud não nasce de discurso bonito, e sim de tarefas que exigem disciplina. Os garotos precisam medir distância, inventar motivo para sair, guardar objetos e lembrar de cada detalhe contado na véspera. A decisão de ajudar empurra os dois para uma agenda escondida, com recados sussurrados, ida marcada e volta apertada. A escola vira lugar de distração, porque a cabeça fica no rio; a família passa a cobrar explicações; o sono encurta com o medo de ser seguido. O roteiro evita romantizar a clandestinidade e insiste em contas concretas, como o tempo gasto em cada travessia e a energia que vai embora em cada mentira.

O barco nos galhos

Matthew McConaughey constrói Mud com um corpo em alerta e um olhar que não sossega. O personagem sabe que um passo fora de hora pode entregar o esconderijo, então ele raciona confiança, solta detalhes aos poucos e testa os meninos com pedidos simples. O trabalho do ator cresce quando o foragido precisa lidar com problemas práticos que não aceitam frase bonita, como comida que acaba, barulho no lugar errado, gente demais perto do barco e um plano que precisa ser refeito em minutos. Mud não vira santo, tampouco vilão de opereta; vira um homem tentando ganhar tempo, e essa tentativa puxa os garotos para um terreno em que coragem e imprudência ficam coladas.

Nichols organiza o cenário ribeirinho a partir de coisas que atrapalham. A água protege e separa, as estradas são longas, o calor pesa e a poeira denuncia passagem. Cada retorno à ilha exige coordenação, e qualquer falha vira cobrança ainda naquela noite, seja um castigo em casa, seja uma pergunta que não pode ser respondida. O diretor também acompanha o que acontece fora do rio, com discussões familiares, falta de dinheiro e adultos que prometem e não entregam. Esse entorno fecha as saídas de Ellis e ajuda a explicar por que ele se agarra a Mud como se um acordo impossível pudesse organizar o que está solto.

Idas e voltas no rio

Quando Juniper aparece, Reese Witherspoon evita a figura idealizada e entrega alguém que carrega hesitação no corpo inteiro. A promessa de reencontro que sustenta Mud não vira prêmio fácil; vira espera, cobrança e improviso. Para Ellis, a presença dela desloca a aventura para um lugar mais confuso, porque ele passa a apostar sentimentos próprios em uma história que não controla. Isso mexe com a amizade dos garotos, que ganha atritos de rotina sobre quem manda, quem decide, quem volta primeiro e quem assume a culpa quando um adulto suspeita. As rachaduras custam tempo, gastam energia e atrasam a próxima ida, como se cada discussão deixasse o rio mais longe.

Os adultos entram em cena sem a comodidade de serem apenas barreiras. Há pais tentando manter a casa de pé, vizinhos que farejam vantagem em qualquer situação e figuras de autoridade que chegam tarde, mas chegam. O roteiro dá espaço para que Ellis encare contradições sem conforto, como querer proteger alguém e não conseguir sustentar esse gesto por muitos dias. Em vez de entregar lição pronta, Nichols faz o garoto pagar pelo que escolhe com broncas, afastamento e a dificuldade de confiar em quem deveria ser referência. A cada novo passo, Ellis precisa escolher entre esconder mais uma informação ou admitir que passou a tarde longe demais.

Em “Amor Bandido”, Nichols prefere ficar com os personagens quando a decisão já foi tomada e o corpo precisa cumprir. A câmera permanece perto dos rostos quando alguém precisa mentir, pedir ajuda ou engolir o orgulho, e a montagem não encurta as reações, deixando que elas ocupem a semana, a casa e a escola. Há risco real, mas a narrativa não encadeia perseguições só para acelerar; ela volta sempre ao trabalho miúdo de atravessar, esperar e esconder. Depois de mais uma travessia, o gesto que sobra é puxar o barco para a lama, limpar as mãos na bermuda e caminhar para casa sem fazer barulho.

Filme: Amor Bandido
Diretor: Jeff Nichols
Ano: 2012
Gênero: Aventura/Drama
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★