Discover
O primeiro filme da história a superar 15 indicações ao Oscar fez isso em 2026 — e está na HBO Max Divulgação / Warner Bros.

O primeiro filme da história a superar 15 indicações ao Oscar fez isso em 2026 — e está na HBO Max

“Pecadores” parte de uma ação direta, dois irmãos gêmeos voltam à cidade natal para tentar reconstruir a vida e apagar um passado conturbado. A decisão já nasce com custo, reencontrar ruas e rostos conhecidos significa gastar energia fingindo normalidade, perder tempo desviando de perguntas e aceitar que uma conversa banal pode virar cobrança. O retorno não vem com conforto, vem com conta para pagar, reputação para remendar e uma sensação incômoda de que qualquer gesto errado recoloca a dupla no mesmo lugar de antes.

Logo, “Pecadores” coloca os dois diante de uma perseguição que não depende só de inimigos de carne e osso. Uma força maligna passa a rondá-los e não fica limitada à dupla, ela contamina a cidade, encurta encontros, deixa gente arisca e transforma vizinhança em terreno de desconfiança. O roteiro acerta ao puxar o terror para o cotidiano, primeiro a tentativa de manter a rotina, depois a necessidade de vigiar caminhos e horários, e então o preço de viver com o corpo alerta, dormir pouco, desconfiar de atalhos e gastar horas tentando entender o que está por trás das histórias que circulam.

Dois irmãos, uma cidade

Michael B. Jordan, interpretando Smoke e Stack, dá corpo ao conflito ao separar os irmãos no gesto e na resposta ao medo. Um tende a agir antes da hora, o outro tenta segurar a mão e calcular consequência, e essa diferença vira problema prático, porque cada iniciativa precipitada cobra do outro tempo para consertar, pedir desculpa, mudar rota, reabrir conversa. Jordan trabalha bem quando deixa o cansaço aparecer sem discurso, olhar que procura saída, fala curta, decisão tomada no impulso e a ressaca emocional de ter escolhido rápido demais.

Ryan Coogler conduz esse material com a mesma atenção a personagem que ele já tinha mostrado em “Creed” (2015, direção de Ryan Coogler), agora em um registro mais áspero e incerto. Em vez de oferecer regras fáceis, ele empurra os irmãos para situações em que informação custa espera e espera custa segurança. A direção favorece deslocamentos, idas e vindas, encontros que não se resolvem em uma conversa e uma cidade que exige coordenação para qualquer movimento. Quando acerta, a ação aparece como resposta a um problema que chegou cedo demais e força decisão com o corpo cansado, sem tempo para planejar direito.

Portas fechadas, rua vazia

Hailee Steinfeld entra como peça importante do entorno, alguém que não está fora do risco e percebe a cidade mudando antes de ter resposta pronta. Sua presença ajuda a dar carne a esse medo espalhado, porque o terror encosta em relação, em confiança quebrada, em receio de sair de casa, em silêncio que toma a sala e deixa todo mundo falando baixo. Steinfeld trabalha bem esse estado de alerta, com reações de quem mede palavra e olha para a rua antes de abrir a porta, e sua energia contrasta com a impulsividade dos irmãos quando o cerco se aproxima.

O roteiro flerta com lendas e mitos como pistas, mas a melhor parte está menos em nomear o mal e mais em acompanhar o que ele exige dos personagens. “Pecadores” fica mais forte quando transforma sobrenatural em tarefa e risco, buscar resposta significa caminhar mais, esperar mais, pedir ajuda para quem talvez feche a cara, e voltar sem garantia de segurança. Em alguns momentos, a narrativa empilha informação e tenta segurar todas as possibilidades ao mesmo tempo, e aí o suspense perde nitidez. Ainda assim, a história recupera fôlego quando retorna ao básico, o que Smoke e Stack fazem agora, quem eles tentam proteger, e quanto estão dispostos a perder de descanso e de paz para continuar de pé.

Mesmo com o terror como motor, há um compromisso claro com o drama de gente que tenta se reerguer e não encontra caminho limpo. Coogler já tinha lidado com comunidade e ferida coletiva em “Pantera Negra” (2018, direção de Ryan Coogler), e aqui ele volta a olhar para a cidade sem transformar tudo em fala solene. O filme se sustenta na fratura entre irmãos que deveriam agir juntos e no custo de insistir quando a rua parece trabalhar contra. Quando a sessão termina, a imagem que gruda é simples, dois irmãos parados no batente, respirando curto, olhando para os lados antes de dar o próximo passo.

Filme: Pecadores
Diretor: Ryan Coogler
Ano: 2025
Gênero: Ação/Drama/Musical/Thriller
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★