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Uma das histórias de amor mais bonitas do cinema holandês chegou ao Prime Video e tem um reencontro 35 anos depois Divulgação / Netflix

Uma das histórias de amor mais bonitas do cinema holandês chegou ao Prime Video e tem um reencontro 35 anos depois

“Além do Tempo” começa com um encontro que mexe com horários, compromissos e com o jeito de encarar o dia seguinte. Lucas e Johanna se aproximam quando ainda existe espaço para sonhar alto, errar sem cálculo e apostar em promessas que cabem numa mochila. A narrativa coloca o casal em movimento, de conversa em conversa, de escolha em escolha, até que a vida em comum passa a ocupar agenda, amigos e planos. O romance se firma em coisas que ficam na mão e no bolso, telefonema, encontro marcado, caminho feito a pé, bilhete guardado, e aquela sensação de que basta combinar o próximo passo para o futuro sair do papel.

Reinout Scholten van Aschat dá a Lucas energia e impulsividade, como alguém que decide rápido e fala como se a decisão já estivesse em andamento. Ele puxa viagens, insiste em ideias e cria situações em que o outro precisa se ajustar de última hora, com roupa escolhida às pressas e um dia inteiro reordenado por um convite feito em cima da hora. O filme acompanha esse comportamento em ações simples, marcar uma saída, mudar um plano, empurrar um projeto, e em como isso muda a rotina do casal. Amar Lucas inclui negociar horário, segurar o impulso e aceitar que uma tarde tranquila pode virar corrida de um lugar para outro só porque ele resolveu “aproveitar” uma chance.

Porta, campainha e espera

Sallie Harmsen constrói Johanna com atenção ao que ela segura antes de responder. Ela não aparece como figura decorativa de romance, e sim como alguém que observa, pesa riscos e tenta manter o pé no chão mesmo quando está apaixonada. A força da personagem está em gestos pequenos, o olhar que pede calma, a recusa de um plano precipitado, a tentativa de proteger o que foi construído junto. Quando a história avança para o reencontro décadas depois, Johanna precisa decidir se atende, se abre a porta, se senta para ouvir, se aceita um convite, se volta para casa com a cabeça cheia. Cada escolha cobra tempo e energia, porque confiança não volta por simpatia, ela volta por presença repetida e por insistência em ficar mais um minuto quando o instinto pede fuga.

O acidente no mar entra como ruptura e reorganiza toda a vida do casal sem virar espetáculo. A consequência aparece no cotidiano, um futuro interrompido, rotas abandonadas, conversas que não aconteceram, objetos guardados em gavetas que ninguém abre com facilidade. O tempo vira calendário, aniversários que passam, anos empilhados, decisões tomadas sem o outro e uma memória que aparece sem ser chamada quando alguém pergunta “e você”. Quando a narrativa salta adiante, já está claro que o reencontro não virá com leveza automática, porque existem décadas de silêncio, medo e distância que precisam ser atravessadas com cuidado, passo por passo, conversa por conversa.

Trinta e cinco anos depois, o reencontro é tratado como negociação e não como cena pronta de romance. Há surpresa e desejo, mas também há cautela prática. Quem procura quem, onde se encontram, quanto tempo têm, o que se diz sem desmontar o próprio dia. O ponto central aparece nessa sequência de ações, ligar, marcar horário, chegar antes, esperar, sentar, levantar, adiar uma resposta, conferir o relógio e perceber que a vida adulta não abre espaço sem cobrar algo em troca. Voltar a confiar exige ouvir o que incomoda, aceitar pausas longas, suportar silêncio e continuar ali mesmo quando a conversa trava e a vontade é levantar e ir embora.

Mesa, mala e calendário

Theu Boermans organiza a narrativa com idas e vindas entre épocas para aproximar passado e presente sem perder o fio das decisões. Um corte joga o casal jovem para a versão madura e, logo depois, devolve o espectador ao início, para que o contraste apareça no corpo e no olhar. As épocas se distinguem por objetos, roupas e hábitos, sem precisar parar para explicar. Quando o passado volta, ele volta para colocar peso nas palavras ditas hoje, como se cada frase carregasse também uma mala antiga que ninguém teve coragem de desfazer por completo.

Elsie de Brauw, em participação de apoio, ajuda a ancorar o presente e a lembrar que o reencontro acontece dentro de uma vida que seguiu em frente, com compromissos, horários e limites que não existiam na juventude. Essa presença puxa a história para situações de casa, de recados e de decisões simples que viram difíceis, aceitar uma visita, encaixar uma conversa, escolher o que contar e o que guardar para amanhã. É nesse terreno que o filme ganha firmeza, porque o amor não entra como prêmio, e sim como escolha que precisa caber no agora, entre um compromisso e outro, entre uma porta fechada e uma porta entreaberta.

“Além do Tempo” se sustenta quando troca frases grandes por gestos que têm peso. O drama aparece na logística do reencontro, na hora marcada, no caminho até o lugar combinado, no que se leva na bolsa, no que se deixa em casa, no tempo gasto parado antes de tocar a campainha. A imagem que fica é simples e concreta, um segundo a mais com o dedo no ar, respirando, antes de apertar e esperar a resposta do outro lado.

Filme: Além do Tempo
Diretor: Theu Boermans
Ano: 2022
Gênero: Drama
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★