Cada ser humano carrega suas perdas, medos e a solidão com a qual vai aprendendo a viver. Não há heróis, sobreviventes é o que somos todos, esperando que o indiferente universo conspire a nosso favor e uma carrancuda sorte digne-se a nos dispensar um sorriso. As muitas camadas de “Ninguém é Perfeito” indicam que este é um filme avesso a rótulos. Joel Schumacher (1939-2020) coloca em marcha um drama urbano cheio de vaivéns diegéticos, no qual mistura análises ainda exordiais sobre homofobia, masculinidade tóxica e intolerância, mirando a sempiterna utopia do respeito e do afeto como uma força capaz de transformar o homem e o mundo. Como se trata de Schumacher, há uma aura noir, quase sombria, a envolver isso tudo.
Triste paisagem
Walter Koontz já foi o homem mais corajoso de Midtown. Em 1988, Walt, agora um ex-policial, comandou a ofensiva contra os bandidos que mantinham clientes de um banco sob a mira de escopetas, mas seus dias de glória são hoje um quadro na parede. De quando em quando, ele se recorda de sua fama, tão curta e ilusória, mas não pode dar-se ao luxo de sonhar muito, porque o aluguel da cabeça de porco onde mora está sempre para vencer. Uma sequência na introdução mostra que a decadência de Walt é não só financeira, mas sobretudo moral, e de agente da lei ele passou ao outro lado, participando de pequenos trambiques e furtos sem armas. Sua única diversão é ir a um salão de dança e procurar Karen, a prostituta interpretada por Wanda De Jesus com quem vai para a cama, e ele não teria queixas, se em breve não fosse passar o maior revés de sua vida.
O sol brilha para todos
Walt sofre um derrame, e o que já era ruim piora bastante. Ele não se encontra mais com Karen, não recebe os raros amigos que o procuram, não pensa em nada além de tomar coragem e dar cabo de seu martírio. Recorrer aos vizinhos, artistas e gays, não é uma opção para um sujeito forjado em preconceitos como ele, mas por uma misteriosa razão, Walt considera um tratamento lúdico, baseado nas aulas de canto ministradas por Rusty Zimmerman, transformista e, como ele, um amargurado, por mais que o colorido das roupas e a maquiagem pesada digam o contrário. Schumacher banca essa ideia quase nonsense, e ainda que seu roteiro inevitavelmente derive para clichês — contornados com sabedoria por James L. Brooks em Melhor É Impossível (1997), por exemplo —, o filme promove um dos mais marcantes encontros do cinema ao juntar Robert De Niro e Philip Seymour Hoffman (1967-2014), dois dos melhores atores de suas respectivas gerações. “Ninguém é Perfeito” é confuso, mas ainda assim é poético.
★★★★★★★★★★


