“Guerra Civil” (2024), dirigido por Alex Garland, acompanha um grupo de jornalistas que atravessa os Estados Unidos em colapso enquanto uma guerra interna avança sem explicações didáticas. A história segue Lee (Kirsten Dunst), fotógrafa veterana que já viu violência demais para romantizar o ofício; Joel (Wagner Moura), repórter impulsivo, falante e constantemente à beira do erro; Jessie (Cailee Spaeny), jovem fotógrafa que entra na estrada movida mais por urgência do que por preparo; e Sammy (Stephen McKinley Henderson), jornalista experiente que entende que sobreviver também é parte do trabalho. O objetivo é claro desde o início: chegar a Washington e tentar entrevistar o presidente antes que o poder desmorone de vez.
Garland escolhe não explicar as causas da guerra. Isso não é descuido, é método. O conflito já aconteceu, o que importa agora são as consequências práticas. Estradas bloqueadas, cidades vazias, homens armados decidindo quem passa e quem não passa. Lee conduz o grupo com frieza profissional, sempre avaliando risco e ganho. Joel aposta na conversa, às vezes demais, usando o carisma como ferramenta de sobrevivência. Jessie observa tudo com olhos atentos, aprendendo rápido que estar ali não é um gesto simbólico, é um teste físico e emocional constante.
O filme funciona melhor quando se concentra no cotidiano brutal desse percurso. Não há discursos inflamados nem grandes explicações políticas. Há decisões pequenas que custam caro. Fotografar ou abaixar a câmera. Avançar ou recuar. Ficar alguns minutos a mais ou perder a chance de acesso. Garland filma essas escolhas com tensão seca, sem trilha emotiva guiando a reação do espectador. A violência aparece de forma abrupta, quase sempre sem aviso, como acontece fora da ficção.
Kirsten Dunst entrega uma das atuações mais contidas e eficazes de sua carreira. Lee não precisa explicar quem é; o corpo cansado, o olhar sempre alerta e a forma como ela reage a cada novo perigo dizem tudo. Wagner Moura traz energia e nervosismo para Joel, um personagem que entende o peso da informação, mas nem sempre mede o custo da própria coragem. Cailee Spaeny funciona como ponto de entrada para o público: Jessie aprende rápido, erra, se assusta e endurece, sem que o filme transforme esse processo em lição edificante.
“Guerra Civil” também fala sobre jornalismo sem idealizar a profissão. Não há heroísmo limpo aqui. Há negociação, medo, cansaço e escolhas que deixam marcas. A imprensa não surge como salvadora nem como vilã, mas como um grupo de pessoas tentando trabalhar em meio ao colapso. O filme observa esse esforço com distância crítica e certo desconforto, recusando frases de efeito e cenas pensadas para aplauso fácil.
Alex Garland constrói um suspense que não depende de reviravoltas mirabolantes. A tensão vem da imprevisibilidade do caminho e da fragilidade de qualquer acordo. Em um país fragmentado, autoridade muda rápido, e nenhuma decisão garante segurança duradoura. O resultado é um filme áspero, inquieto e profundamente físico, que prefere acompanhar o desgaste dos personagens a oferecer respostas prontas.
Sem entregar soluções nem finais reconfortantes, “Guerra Civil” se impõe como uma experiência incômoda e atual. É um filme que observa mais do que explica, que provoca mais do que consola, e que encontra sua força justamente na recusa de transformar o caos em espetáculo fácil.
★★★★★★★★★★


