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O filme mais visto da Netflix no mundo agora tem Matt Damon e Ben Affleck — e é impossível largar Claire Folger / Netflix

O filme mais visto da Netflix no mundo agora tem Matt Damon e Ben Affleck — e é impossível largar

Em “Dinheiro Suspeito”, Joe Carnahan coloca Matt Damon, Ben Affleck e Steven Yeun num thriller policial de espaço fechado: o tenente Dane Dumars lidera a Tactical Narcotics Team, o sargento detetive J.D. Byrne trabalha ao lado dele, e o detetive Mike Ro tenta manter o chão firme. Durante uma batida, a equipe encontra 20 milhões de dólares escondidos em baldes no sótão de uma casa, atrás de uma parede falsa, e o conflito central nasce ali: contar o dinheiro no local, sem poder sair, enquanto a confiança entre eles começa a rachar.

A primeira escolha prática não é heroica, é burocrática: cumprir a regra de contagem à mão antes de cruzar a porta. Isso transforma a sala da casa em estação de trabalho, com a mesa tomada por maços de notas, documentos e sacos de evidência, e deixa todos expostos ao tempo. Quando o sol desce e a luz fica pobre, o dinheiro passa a ditar o ritmo, e o procedimento vira um cerco que ninguém pediu. A ameaça do cartel, sugerida como certa, entra na casa como uma corrente de ar: não se vê o rosto de quem vem, mas se sente o relógio encurtar.

A história nasceu de uma apreensão real feita em 2016 no condado de Miami-Dade, quando uma equipe encontrou milhões escondidos em baldes num sótão, e Carnahan preserva esse núcleo para construir tensão. Em vez de tratar o dinheiro como prêmio, o roteiro o trata como obstáculo: a contagem obrigatória no local impede fuga, alonga a exposição e dá ao filme um limite físico. O cão farejador de dinheiro, a presença de câmeras de vigilância da própria casa e a ideia de uma parede improvisada fazem o cenário parecer doméstico demais para abrigar uma soma tão suja. O resultado é simples de entender e difícil de suportar, porque cada minuto parado aumenta o que pode dar errado.

Com a contagem em curso, o filme distribui poder por tarefas. Numa Baptiste e Lolo Salazar ficam no trabalho repetitivo de somar cédulas, e o restante precisa escolher entre ficar perto da mesa ou cuidar do perímetro da casa, sem a segurança de confiar em todos. Cada maço contado resolve um pedaço do problema e abre outro, porque também registra quem esteve perto demais do dinheiro.

Amizade sob patente e disciplina

A tensão mais afiada não está no sótão, mas na hierarquia que cresce dentro da sala. Dumars, recém-promovido, precisa decidir e impor ordem; Byrne, que conhece o parceiro há tempo suficiente para desconfiar de certezas, mede cada comando como quem mede risco. Quando Dumars insiste na linha do procedimento e Byrne pede garantias, a conversa muda de temperatura e vira gesto: um se prende à mesa, o outro prefere ficar perto da porta. A amizade continua ali, só que agora tem um crachá no meio.

Ro circula entre os dois como quem não quer escolher lado, mas a casa não permite neutralidade. A certa altura, o que ele faz com o próprio corpo, ficar na sala ou voltar ao sótão, passa a valer como voto. Ele hesita, e a hesitação vira ruído.

Fardas federais e o medo do relatório

Quando a história puxa o mundo externo para dentro, ela o faz pelo caminho institucional. O agente da DEA Matty Nix entra como par de Dumars e Byrne e deixa um aviso prático: em meio a uma ofensiva contra corrupção, confiar errado pode custar o distintivo. Diante disso, Dumars precisa escolher entre manter o caso dentro do círculo ou abrir espaço para mais uma autoridade, e cada opção tem preço imediato. A presença da DEA e a sombra do FBI, ligada ao agente Del Byrne, fazem o dinheiro virar também um problema de versão oficial.

Essa camada de fiscalização empurra o filme para um tipo de suspense onde tudo é registrável: quem tocou nos maços, quem ficou na mesa, quem saiu do cômodo. A sala, com luz baixa e sacos de evidência misturados aos documentos, vira uma balança moral. A noite avança. Enquanto isso, a possibilidade de cartel do lado de fora mantém a equipe presa ao endereço, porque sair antes da contagem não é só erro, é convite para perder o controle do que será contado depois.

O dinheiro como teste de caráter

Carnahan filma e escreve como se esse fosse um filme sobre homens treinados para agir, obrigados a esperar, e essa contradição dá liga ao melhor de “Dinheiro Suspeito”. A casa, o sótão e a mesa funcionam como laboratório: cada decisão sobre onde ficar, a quem responder e como registrar a contagem modifica o nível de perigo na mesma hora. Nem tudo tem a mesma força, mas quando o roteiro lembra que o dinheiro não precisa falar para mandar, ele acerta em cheio. E, no instante em que alguém empurra o último maço para dentro do saco de evidência sobre a mesa da sala, o ar fica mais pesado.

Filme: Dinheiro Suspeito
Diretor: Joe Carnahan
Ano: 2026
Gênero: Ação/Crime/Drama/Mistério
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★