Discover
Uma assombração chamada Dr. Auzio

Uma assombração chamada Dr. Auzio

Antes, eu odiava ir à academia. Agora, eu amo odiar ir à academia — e tenho praticado isto com uma disciplina invejável, aproveito para me gabar. 

O responsável por esta mudança de perspectiva tem nome, sobrenome, apelido carinhoso e uma coleção de memes e engraçadas figurinhas de WhatsApp: Drauzio Varella.

Ele é o médico mais famoso do Brasil e, até bem pouco tempo atrás, podia ser considerada a única unanimidade nacional. Até bem pouco tempo atrás porque, tempos estranhos estes, hoje em dia um sujeito que defende vacinação e saúde pública para todos acaba sendo tachado, por uma parcela minoritária mas escandalosa da população, como comunista-vai-pra-cuba-abraça-o-maduro-petralha-inimigo-da-nação. 

Tempos estranhos. 

Pessoas estranhas. 

Mas até nisso o Drauzio cumpriu o papel sanitário que cabe a um médico: ele virou a nota de corte que guia minhas podas na árvore genealógica e nos contatos das redes sociais. Se a pessoa é contra ele, pronto, está justificada a irremediável cisão — tesourinha afiada neste galho. 

Há coisa de um ano tive o privilégio de entrevistar o famoso médico, que então estava divulgando seu mais recente livro. Foi por chamada de vídeo. Papo findo, perguntas feitas, o carismático doutor inverteu o jogo e passou a me interrogar, naquele exercício de saciar as próprias curiosidades que, percebo, ser algo natural diante de um bizarro caso de jornalista brasileiro morando em uma casinha no pé de uma montanha congelada no leste europeu.

— Eslovênia… O que você faz aí?

— É muito frio?

— Por que escolheu viver aí?

— Mora sozinho ou com família?

— Eslovênia, mesmo?

— Eslovênia?

Fui vencendo uma a uma as perguntas, as mesmas, aliás, com as quais eu já estava deveras acostumado. (Sim, há meio um FAQ padrão que costuma finalizar praticamente todas as entrevistas ou interações sociais quando o brasileiro do outro lado desenha uma interrogação gigante na cabeça ao sacar que eu estou morando na Eslovênia, e não na Eslováquia, e não na Estônia, e não na Letônia…) 

Até que ele veio tocar em ponto nevrálgico:

— E como está essa vida, muito sedentário?

Drauzio é esperto e experiente. Convive com jornalistas desde sempre. Sabe como somos. E também não deve ter sentido muita sinceridade ou empenho quando eu falei:

— Ah, tô bem, doutor. Academia aqui pertinho: ó, vou três vezes por semana. 

Na época, eu mirava em três vezes para ir duas. Tinha semana que só conseguia uma vezinha, porque sempre tinha desculpa pronta: tá frio, tá calor, tá chovendo, tenho duas matérias para entregar, meu pé está doendo, dormi mal, preciso levar meu filho para a aula de violão. 

O Drauzio me olhou com empatia. E prosseguiu a conversa usando minha mesma terminologia. Falou “ir à academia” e não “treinar” — que acho que é o verbo mais contemporâneo acerca da atividade. Aí o doutor já me ganhou. Lembro da birra que peguei quando, em consulta médica com um cardiologista brasileiro lá pelos idos de 2015, este falou que eu precisava treinar ao menos três vezes por semana. 

— Mas eu não sou piloto de Fórmula 1 para ficar treinando — respondi mentalmente. 

—Treino é treino. Jogo é jogo — consegui sorrir por dentro.

Meta para 2026: ainda vou incorporar o “fazer ginástica”. Que é muito mais bonito do que ir à academia, aliás. 

Pois o Dr. Drauzio Varella não só desceu ao meu patamar sedentário para me ouvir com empatia, incorporando meu vocabulário acadêmico, como parecia estar atento às palavras que eu emitia, como se realmente se importasse com minha saúde corporal. Que pessoa boa. Por isso está defendendo o SUS e não querendo a volta dos militares ao poder. Por isso abraça o Zé Gotinha e quer crianças 100% vacinadas e não fica postando fake news que nem um tiozão de WhatsApp.

Depois que eu terminei meu desabafo, como se justificasse para ele o injustificável de meus poucos minutos semanais em movimento, ele disse: 

— Mas Edison, se é assim tão pertinho como você diz, por que você não vai todo dia?

— Ah, todo dia não dá tempo.

A partir de então eu não sei definir qual parte foi da nossa conversa, qual parte é de algum videozinho renitente de Instagram que vira e mexe aparece no meu celular — porque esses agentes das big techs sabem o conteúdo que precisam entregar para a gente, é claro. 

Mas o Dr. Drauzio Varella, em sua dialética passivo-agressiva, veio com um arrazoado incontornável: 

— … que vida tacanha a sua, hein?! Se não tem 30 minutos sobrando para fazer um exercício, está mesmo valendo a pena? Cuidar do corpo é o mais importante. Porque sem o corpo você não consegue brincar com seu filho, sem o corpo você não consegue trabalhar, sem o corpo você não consegue se divertir. Você precisa do corpo até para as coisas comezinhas. Sem o corpo você morre. Morre. Aí não tem mesmo corpo para cuidar. Nem nada. Nem vida para viver. 

Nos últimos meses tenho feito ginástica pelo menos cinco vezes por semana. A academia é perto de casa, coisa de 100 metros, vou andando. Dá para ir mesmo se estiver chovendo, nevando. Dá tempo entre uma entrevista e outra. Dá tempo. É chato. Chato pra caramba. Mas pelo menos fico ouvindo música e fingindo que não estou lá. 

É o único jeito possível de levar a vida sem que uma voz me assombre. A voz do Drauzio Varella. Ou Dr. Auzio, como diz o meme. 

— Se não tem 30 minutos sobrando, a vida está mesmo valendo a pena?

Edison Veiga

Edison Veiga é escritor e jornalista e vive em Bled, na Eslovênia, desde 2018. Publicou oito livros, entre eles ‘Titereiro’ e ‘O Menino que Sabia Colecionar’.