Discover
Chocante e desesperador: a história na Netflix que vai fazer você pensar duas vezes antes de seguir alguém nas redes sociais Divulgação / Netflix

Chocante e desesperador: a história na Netflix que vai fazer você pensar duas vezes antes de seguir alguém nas redes sociais

A história é real e chocante: um menino de 12 anos, pequeno e magro demais para a idade, bate à porta de um vizinho e pede ajuda. Ele tem ataduras nos punhos e nos calcanhares e apresenta sinais evidentes de agressões e maus-tratos. O vizinho, um idoso, liga imediatamente para a emergência e descreve o que acaba de testemunhar. O garoto fala pouco, mas sua aparência diz tudo aquilo que ele não consegue verbalizar. A situação é tão perturbadora que, durante a ligação, o homem, antes objetivo e pragmático, começa a ceder. A voz falha, o tom muda e, de repente, ele chora ao telefone.

A ambulância chega, seguida pela polícia. A poucos metros da casa do idoso, em uma residência ampla de um bairro abastado, os agentes batem à porta e entram sem cerimônia, dispensando mandado diante da gravidade do caso. Ali, eles prendem em flagrante as responsáveis por aquele crime hediondo. Os policiais vasculham todos os cômodos não para reunir provas, mas para encontrar outras possíveis vítimas. E encontram. Em um dos quartos, uma menina de 10 anos, em condições semelhantes às do garoto resgatado minutos antes.

Duas mulheres são levadas imediatamente sob custódia. Uma delas é Ruby Franke, mãe das crianças e influenciadora digital conhecida por publicar vídeos no YouTube mostrando a rotina com seus seis filhos. A outra é Jodi Hildebrandt, coach de famílias e relacionamentos. A polícia inicia então uma corrida contra o tempo para localizar os demais filhos do casal, que haviam se dispersado em diferentes lugares. O pai, Kevin Franke, é chamado à delegacia. Em depoimento, ele revela que não vê a própria família há cerca de um ano, afastado por decisão da esposa, Ruby, e de sua parceira de negócios, Jodi.

Jodi e Ruby haviam criado juntas um canal no YouTube voltado ao aconselhamento familiar e à criação dos filhos. Paralelamente, Jodi oferecia cursos on-line e atendia como terapeuta de casais, cobrando centenas de dólares de dezenas de famílias, o que lhe permitiu construir um império financeiro. Sustentada por crenças religiosas extremamente conservadoras e por um fanatismo perigoso, Jodi se revela uma figura altamente manipuladora. Ela incentiva mulheres a chantagearem os próprios maridos, destrói casamentos e, em seguida, convence essas mães a submeterem seus filhos a práticas de tortura, sob a justificativa de que as crianças precisariam ser “libertadas” de espíritos demoníacos.

O mais perturbador é que esse discurso encontra enorme adesão na internet. A influência de Jodi cresce rapidamente, criando um ciclo de dependência: mulheres emocionalmente capturadas por sua retórica, homens afastados de suas famílias e crianças submetidas a métodos opressivos e violentos. O documentário dirigido por Skye Borgman adota uma abordagem expositiva e cronológica, reconstruindo os fatos exclusivamente a partir dos relatos das testemunhas envolvidas no caso. É por meio da experiência dessas pessoas que o público acompanha a narrativa.

A história é escandalosa. Jodi destruiu casamentos e vidas. Expôs crianças a traumas irreparáveis. Hoje, responde criminalmente por seus atos, mas o documentário propõe um dilema inquietante: até que ponto somos influenciados por quem acompanhamos na internet? A web é apenas um recorte cuidadosamente filtrado da realidade, onde celebridades digitais exibem versões palatáveis de si mesmas, enquanto, fora do enquadramento, podem existir abusos, crimes e exploração. O filme funciona como um alerta claro e necessário. É preciso cautela com o que consumimos e com quem escolhemos acreditar. A internet, definitivamente, não é um ambiente seguro, sobretudo quando crianças estão envolvidas.

Filme: Influencer do Mal: A História de Jodi Hildebrandt
Diretor: Skye Borgman
Ano: 2025
Gênero: Crime/Documentário
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★
Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.