No centro de “A Casa”, dirigido por Àlex Pastor e David Pastor, Javier Gutiérrez vive um publicitário desempregado que é obrigado a vender o apartamento onde morava e, ao descobrir que ainda tem as chaves, passa a se fixar no casal que ocupa o lugar, interpretado por Mario Casas e Bruna Cusí, decidido a recuperar a vida que considera sua.
A chave e o direito inventado
Chave no bolso, porta conhecida, corredor repetido, o roteiro faz questão de tornar concreto o ponto de partida e não demora a mostrar o quanto esse acesso vira tentação. Javier encontra no metal da chave uma desculpa íntima para voltar, como se o gesto de abrir a fechadura fosse um direito antigo, e a história trabalha com a diferença de informação para criar ansiedade, ele sabe por onde entrar, ele conhece o espaço, ele entende o que perdeu, enquanto os novos moradores seguem sem perceber que alguém circula tão perto. Essa escolha dá ao suspense um ritmo de aproximação, porque a ameaça cresce em pequenas decisões e não em anúncios.
Insiste em retornar ao mesmo endereço, e o filme acompanha essa insistência com uma curiosidade incômoda, observando como cada ida ao apartamento torna mais fácil a próxima, como se o corpo aprendesse uma rotina. Fica tudo mais estreito. A escalada se sustenta porque o roteiro alterna o que revela cedo e o que segura, permitindo que Javier aja com vantagem por um tempo, enquanto o casal continua preso ao cotidiano, porta, chave, elevador, e a sensação de segurança que costuma acompanhar um lar recém-ocupado.
Status dentro do elevador
O título original, “Hogar”, aponta para um tipo de ironia que a história explora com frieza, porque “lar” ali vira menos afeto e mais troféu, e isso muda a leitura do desejo de Javier. Ele não quer apenas entrar no apartamento, ele quer voltar a caber naquela imagem social que o endereço sustentava, e o roteiro empurra esse impulso para situações em que ele precisa vestir uma máscara, medir as palavras, controlar o olhar, como alguém que sabe que um deslize no corredor ou no elevador pode revelar a intenção. A tensão vem do cuidado, do modo como ele tenta parecer normal enquanto organiza o próprio plano.
Tapete, sala, móveis novos, a casa ganha outra cara. O espectador percebe isso rápido. Javier percebe mais rápido ainda. O incômodo cresce no detalhe.
O casal como espelho
Currículo na mão, telefone esperando resposta, terno reaparecendo no armário, a narrativa faz questão de encostar a crise de Javier em objetos comuns e, com isso, evita que a obsessão pareça um delírio distante. Ele busca recolocar a própria vida no lugar, e o roteiro deixa claro que o problema surge quando esse impulso passa a depender da vida alheia, do casal que ocupa o apartamento e tenta construir rotina. O diálogo, quando aproxima esses personagens, costuma alterar hierarquia e vergonha, porque Javier precisa parecer cordial para se aproximar e, ao mesmo tempo, quer controlar a situação, como alguém que não aceita ser visto como perdedor.
Evita se expor de uma vez, e essa cautela dá ao suspense um aspecto cotidiano, quase administrativo, de quem testa limites em vez de atravessá-los de uma só vez, guardando informação, observando reações, ajustando o próximo passo. Ele ganha tempo com gestos pequenos e plausíveis, e o roteiro usa essa plausibilidade para apertar o nó, já que o casal vive o dia a dia com regras simples, chave na bolsa, porta trancada, horários, e qualquer quebra dessas regras cria medo. Dá para sentir o peso da fechadura. E isso segura o filme.
Terror sem efeitos fáceis
Porta fechada, apartamento ocupado, chave que ainda abre, “A Casa” encontra força quando mantém o terror preso a esse triângulo material e às consequências humanas que ele provoca. Àlex Pastor e David Pastor conduzem a história como uma sequência de escolhas com custo crescente, cada uma exigindo que Javier se comprometa um pouco mais com a própria mentira, e essa coerência é o que torna o filme mais inquietante do que um simples jogo de sustos. Quando a trama se aproxima do melhor ponto, ela deixa o espectador preso ao mesmo gesto que prende o protagonista, a vontade de girar a chave outra vez, mesmo sabendo que o que está do outro lado já não pertence a ele.
★★★★★★★★★★


