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O filme premiado da Netflix com 100% de avaliações positivas que você ainda não viu Divulgação / Netflix

O filme premiado da Netflix com 100% de avaliações positivas que você ainda não viu

“Entre Frestas”, dirigido por Piotr Domalewski, põe Tomasz Ziętek, Hubert Milkowski e Marek Kalita diante de um conflito que morde por dentro: um jovem policial, em Varsóvia dos anos 80, tenta conduzir uma investigação de assassinato ligada à comunidade gay e descobre que cada conversa pode virar registro contra alguém, inclusive contra ele, num corredor de delegacia onde pastas mudam de mãos sem alarde.

Começa com o básico que dá susto justamente por ser básico, mesas cheias de papel, carimbos que batem seco, telefonemas que interrompem raciocínio e uma regra implícita de quem pode olhar certas páginas e quem deve ficar do lado de fora. O policial aprende cedo que parte das informações chega pronta, embrulhada em explicação breve, e outra parte fica retida em gavetas e conversas de porta, o que cria uma tensão permanente entre o que ele viu com os próprios olhos e o que lhe mandam aceitar como conclusão.

Insiste em avançar, e esse avanço aparece como decisão concreta, ele entra em salas onde a cadeira fica perto demais da mesa, faz perguntas com cuidado calculado e escuta respostas que mudam conforme o interlocutor percebe quem está por trás do distintivo. O diálogo vira instrumento de hierarquia, porque um superior resolve o rumo de uma conversa com meia frase, e uma palavra de tratamento dita no tom errado vira recado de disciplina, empurrando o protagonista para um lugar em que ele precisa escolher entre obedecer ou abrir uma nova linha de apuração.

Um informante muda o jogo

Tenta se aproximar de um informante jovem, e essa aproximação desloca a relação de poder para fora da delegacia, para encontros em locais onde o uniforme pesa mais do que protege. O informante sabe nomes, caminhos e horários que o policial não consegue tirar de um arquivo, e esse desequilíbrio produz um suspense de detalhe, porque o protagonista passa a depender de uma pessoa que pode desaparecer a qualquer momento, ao mesmo tempo em que carrega a autoridade de prender, pressionar e arruinar.

Esconde o que pode dos colegas, e o próprio ato de esconder vira parte do enredo, com objetos simples carregando tensão, uma pasta fechada depressa, um bilhete guardado no bolso, um endereço repetido na cabeça para não deixar rastro no papel. A história segura certas respostas por tempo suficiente para que o espectador sinta a lentidão burocrática como ameaça, e revela o bastante para que cada passo do protagonista tenha consequência, já que a investigação deixa de ser apenas uma missão de serviço e passa a atravessar a vida privada dele em intervalos curtos, como se alguém estivesse sempre a um corredor de distância.

Desejo sob vigilância

Evita demonstrar demais quando percebe que a corporação observa até o silêncio, e o filme trabalha bem esse tipo de cuidado, a forma como o protagonista mede o olhar, controla a respiração, escolhe onde ficar de pé numa sala. A pressão de um chefe mais velho, com postura de quem manda sem levantar a voz, empurra o policial para escolhas que custam caro, porque cada recuo tem preço e cada insistência deixa marca em gente que já vive acuada por regra e por rumor.

A repetição aparece como ferramenta narrativa com efeito direto no corpo do personagem, ele volta a um mesmo tipo de conversa, a um mesmo tipo de pergunta, a uma mesma porta que se abre só pela metade, e cada retorno traz uma restrição nova, alguém acompanha, alguém suspeita, alguém pede explicação, alguém exige que o papel esteja completo. O suspense cresce quando o protagonista percebe que o que ele busca resolver na rua pode ser usado para cercá-lo no prédio da polícia, e essa ideia se materializa em gestos pequenos, como o momento em que ele segura um documento tempo demais, ou quando escolhe não registrar uma informação, apostando que o esquecimento protege.

No fim, Domalewski conduz a história por um caminho em que o peso maior vem das regras do cotidiano, e não de um choque isolado, e esse peso se vê em objetos e procedimentos, uma ficha que muda de lugar, um arquivo que some, uma ordem dada no corredor, um encontro marcado com pressa. Ziętek sustenta bem a inquietação de um homem jovem que tenta preservar algum controle enquanto o trabalho o empurra para a sombra, e Milkowski e Kalita funcionam como forças que apertam e afrouxam a corda em momentos diferentes, fazendo o protagonista agir por impulso num instante e por cálculo no seguinte, sempre com o custo visível na forma como ele atravessa portas e escolhe o que dizer.

Filme: Entre Frestas
Diretor: Piotr Domalewski
Ano: 2021
Gênero: Crime/Drama/Thriller
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★