A fragilidade das instituições refletem o descompasso entre a democracia e a vida como ela é. A polícia está sempre às voltas com escassez de recursos, o que acaba por comprometer investigações e reduzir sua eficácia. Agentes pouco ciosos de seu papel minam a confiança da população e reforçam o sentimento de impunidade. A justiça, por seu turno, padece de uma tibieza anormal, que, paradoxalmente, degringola em iniquidade, e nesse caldeirão refervem ira, ódio e dilemas éticos, matérias-primas de “Dinheiro Suspeito”. O roteiro do diretor Joe Carnahan e Michael McGrale retoma uma história real de policiais de Miami que, durante operações contra cartéis de drogas, ficam com uma parte da bolada apreendida. Até serem vítimas de sua própria ganância.
A arte imita a vida
Matt Damon e Ben Affleck abrem um novo capítulo da exitosa parceria de três décadas e encarnam dois detetives meio desgostosos com seu ganha-pão. Os vencedores do Oscar de Melhor Roteiro Original por “Gênio Indomável” (1997), de Gus Van Sant, demonstram um amadurecimento profissional admirável ao destacar as nuanças de Dane Dumars e JD Byrne, alternando-se na preferência do espectador conforme o filme avança. Eles ficam mexidos com o assassinato da capitã Jackie Velez, por bandidos mascarados e em circunstância bastante misteriosa. Há a suspeita de que Velez tenha sido executada porque chegou perto demais dos mandachuvas de um esquema que arrecadava propinas milionárias e garantia que traficantes continuassem com seus negócios sem serem importunados. Queima de arquivo? Só?
Dupla dinâmica e mais
Carnahan faz a história mover-se a partir do mecanismo não muito sofisticado, embora inventivo, de contrapor as figuras de Dumars e Byrne, para depois ir oferecendo à audiência subsídios para desvendar a morte de Velez. Metódico, cerebral, Dumars está por trás de todos os passos de Byrne, o que alimenta a desconfiança de que a banda podre da polícia tem mais influência do que se pode imaginar. Essa sensação recrudesce numa sequência em que o departamento estoura uma base do cartel cujo sótão guarda quase vinte milhões e meio de dólares, achados por Wilbur, o cão farejador da corporação. Desireé Molina, a moradora do imóvel, parece estar sendo franca quando diz que não sabe como aqueles baldes de cédulas foram parar justamente no forro da sua casa, e aí “Dinheiro Suspeito” começa a fazer sentido. A polícia imoral sempre rende bom entretenimento. Pena que ela insiste em extravasar a ficção.


