“Para Sempre” parte de uma premissa conhecida, mas acerta ao tratá-la com mais pé no chão do que sentimentalismo. Após um acidente de carro, Paige (Rachel McAdams) acorda sem qualquer lembrança do relacionamento com Leo (Channing Tatum), seu marido, e a vida que os dois construíram juntos simplesmente deixa de existir para ela. O filme não perde tempo tentando transformar isso em mistério: o drama está em como continuar quando apenas um dos dois sabe o que foi perdido.
Channing Tatum trabalha bem esse descompasso. Seu Leo não é um herói romântico idealizado, mas alguém insistente, às vezes sem noção, tentando recuperar espaço à força de gestos cotidianos. Ele mostra fotos, conta histórias, reapresenta o apartamento e os hábitos do casal, mas cada tentativa esbarra no mesmo problema: Paige não sente nada daquilo. O amor, aqui, não vem embalado pela memória, e isso cria um atrito constante, simples e dolorosamente humano.
Rachel McAdams sustenta o outro lado com precisão. Sua Paige não é fria nem ingrata; ela está, acima de tudo, confusa. A personagem acorda cercada de pessoas que exigem intimidade imediata, enquanto ela mal reconhece a própria vida. McAdams dá peso a esse estranhamento, fazendo com que cada sorriso hesitante e cada recuo tenham impacto real. Paige não rejeita Leo por crueldade, mas por autoproteção.
O conflito se amplia quando a família de Paige entra em cena, especialmente o pai interpretado por Sam Neill. Ele representa uma versão do passado que parece mais segura, mais alinhada com quem Paige foi antes do casamento. Essa interferência não vira vilania explícita, mas muda o equilíbrio de forças. Leo deixa de disputar apenas sentimentos e passa a disputar legitimidade, espaço e influência, o que torna suas tentativas ainda mais frágeis.
O bom é que o filme trata o romance como uma negociação contínua, não como destino inevitável. Há momentos de humor leve, geralmente quando Leo tenta recriar situações românticas que só fazem sentido para ele, e o constrangimento vira parte do aprendizado. O riso surge rápido e some rápido, sempre ligado à reação imediata de Paige, nunca como alívio artificial.
Michael Sucsy dirige a história sem pressa excessiva e sem exageros técnicos. A narrativa prefere acompanhar pequenas decisões e seus efeitos diretos, mantendo o foco nos personagens e no impacto prático da amnésia sobre o casamento. O filme não promete respostas fáceis nem soluções mágicas, e essa contenção funciona a seu favor.
“Para Sempre” fala menos sobre recuperar o passado e mais sobre testar se um sentimento consegue sobreviver sem ele. Pode soar previsível à distância, mas o envolvimento vem justamente do cuidado com os detalhes e da química honesta entre McAdams e Tatum. É um romance que convence não pelo drama extremo, mas pela maneira simples com que transforma o amor em algo que precisa ser reaprendido, dia após dia.
★★★★★★★★★★


