Os vários labirintos de “Um Ato de Esperança” levam a debates que sempre hão de inspirar cautela, curiosidade e medo, no intervalo que separa certeza e culpa, evolução e retrocesso. Em maior ou menor proporção, a vida é um ajuntamento de autocobranças, satisfações que achamos que devemos ao universo — quando o universo não faz a menor ideia de quem somos, e não tem nenhuma pretensão de saber —, dilemas existenciais quase sempre profundos como um balde e dúvidas quanto ao que reserva-nos o futuro, essas, sim, cáusticas. Adaptado por Ian McEwan de seu próprio romance, “A Balada de Adam Henry” (2014), o filme de Richard Eyre trata de escolhas, difíceis ou nem tanto, e suas consequências. Eyre, ex-diretor do National Theater em Londres, junta-se a McEwan, um dos melhores contadores de histórias do nosso tempo, determinado a embaralhar as convicções de quem assiste. E o faz com graça.
Os pesos da balança
Fiona May é a encarnação da sensatez. Juíza da Alta Corte de Londres, Fiona começa o filme julgando o caso de gêmeas xifópagas que podem morrer se não forem separadas, e enfrenta a cólera santa dos pais das meninas, cristãos fervorosos que acham que a cirurgia é nada mais que um crime com verniz de legalidade. A meritíssima opta por seguir a Lei da Criança do Parlamento britânico e preterir aspectos subjetivos como doutrinas religiosas em favor da ciência e da lógica, mas a questão não é tão simples, porque com a operação uma das crianças morrerá. Eyre faz um mergulho na intimidade de Fiona, casada com Jack, um professor universitário de filosofia, e então pode-se ver que sua vida não é nenhum mar de rosas. Julgamentos se sucedem, cada vez mais próximos uns dos outros, processos exigem sentenças e agora sua tarefa é decidir a vida de Adam Henry, um rapaz de dezessete anos que sucumbirá à leucemia caso não receba uma transfusão de sangue.
Fé ou sadismo?
Deus é, mais uma vez, a pedra no sapato de Fiona. Filho de testemunhas de Jeová, Adam está conformado com a morte iminente, mas como no episódio das gêmeas siamesas, é a juíza a senhora de seu destino, e ela quer que ele seja tratado e continue a viver. O diretor faz bom proveito das indicações de McEwan e contrapõe a dedicação de Fiona ao garoto e a ruína de seu casamento, agravada depois que Jack resolve manter um romance com uma colega mais jovem — e o diz com todas as letras à esposa. Desse ponto em diante, “Um Ato de Esperança” firma-se nas atuações de Emma Thompson, Stanley Tucci e Fionn Whitehead, que vivem um triângulo amoroso nada, nada convencional, já que nunca toma forma. A magistrada não diz seu e-mail quando Adam pede-lho, mas ele descobre o telefone dela e começa a persegui-la. Mestre nessas narrativas intrincadas, sobretudo quando se dão entre gente de universos paralelos, Eyre lembra o magnífico resultado que obtivera com “Notas sobre um Escândalo” (2006) e sublinha o absurdo da paixão de Adam por Fiona, que anseia corresponder, mas teme por tudo o que colocará em risco se o fizer. Com delicadeza perturbadora, Eyre e McEwan lembram-nos das lições de Schopenhauer e Dostoiévski quanto à miséria da condição humana. Salvando alguém, podemos ser seu carrasco mais diabólico.
★★★★★★★★★★




