Baz Luhrmann pega uma das histórias mais conhecidas da literatura e faz uma escolha arriscada: muda o cenário, acelera o ritmo, mas mantém o texto original de Shakespeare. Em “Romeu + Julieta”, isso não é truque estético; é a base de tudo. A tragédia acontece em Verona Beach, uma cidade moderna, violenta e barulhenta, onde o ódio entre duas famílias virou espetáculo público. Desde o início, fica claro que amar ali não é um gesto íntimo, é um ato exposto, observado e constantemente ameaçado.
Romeu Montéquio (Leonardo DiCaprio) surge como um jovem impulsivo, emocionalmente desarmado, tentando entender o próprio lugar em meio ao caos. Ele não é um herói clássico, nem um rebelde calculado. É alguém que reage mais do que planeja, o que faz com que cada decisão tenha consequências rápidas. Quando conhece Julieta Capuleto (Claire Danes), a relação nasce menos como ideal romântico e mais como refúgio imediato. Ela, por sua vez, não é ingênua. Julieta observa, mede riscos e entende cedo o peso do sobrenome que carrega.
O maior mérito do filme é deixar claro que o maior inimigo do casal não é apenas a rivalidade familiar, mas o ambiente inteiro. Verona Beach funciona como uma cidade que vigia, pressiona e cobra posicionamentos. Tybalt Capuleto (John Leguizamo) personifica esse clima de hostilidade constante. Ele anda armado, provoca conflitos e transforma qualquer encontro casual em ameaça real. Cada vez que aparece, o nível de tensão sobe, e os personagens precisam reagir rápido para não perder controle da situação.
Luhrmann aposta em um ritmo acelerado, com cortes rápidos, música alta e imagens saturadas. Essa escolha não serve só para modernizar Shakespeare, mas para transmitir urgência. Nada ali parece estável ou seguro por muito tempo. As conversas são interrompidas, os encontros duram pouco e as decisões precisam ser tomadas no calor do momento. O filme deixa a sensação de que os personagens estão sempre correndo contra algo, mesmo quando não sabem exatamente o quê.
Leonardo DiCaprio entrega um Romeu intenso, por vezes exagerado, mas coerente com a proposta do diretor. Seu personagem sente tudo demais, o tempo todo, o que torna suas atitudes compreensíveis, mesmo quando precipitadas. Claire Danes equilibra essa intensidade com uma Julieta mais centrada, que amadurece visivelmente ao longo da história. A química entre os dois funciona porque não tenta ser sutil: é direta, emocional e urgente, como o próprio filme.
Há espaço para humor, especialmente nas cenas com Mercúcio (Harold Perrineau), que usa ironia e exagero como forma de sobreviver naquele ambiente hostil. O riso, porém, nunca é confortável. Ele surge rápido e some mais rápido ainda, deixando claro que ali o alívio é sempre provisório. A leveza existe, mas não protege ninguém por muito tempo.
“Romeu + Julieta” divide opiniões justamente por não tentar agradar a todos. O excesso visual, a dramaticidade elevada e o texto clássico em bocas modernas podem cansar alguns espectadores. Ainda assim, é difícil negar a coerência do projeto. Luhrmann sabe exatamente que filme quer fazer e não recua. Ele transforma a tragédia em algo barulhento, juvenil e descontrolado, como o próprio sentimento que move os protagonistas.
O filme funciona menos como um conto de amor idealizado e mais como um retrato de jovens tentando existir em um mundo que não lhes oferece espaço. Romeu e Julieta, interpretados por DiCaprio e Danes, não desafiam apenas suas famílias, mas uma cidade inteira que parece pronta para engolir qualquer tentativa de delicadeza. É intenso, imperfeito e, justamente por isso, difícil de ignorar.
★★★★★★★★★★




