“A Pura Verdade” parte de uma situação simples e dolorosamente humana: um homem celebrado em público retorna para casa e descobre que ali seu prestígio vale muito pouco. O filme acompanha William Shakespeare (Kenneth Branagh) nos últimos anos de vida, quando ele deixa Londres e tenta se reconectar com a família em Stratford. Não há urgência externa nem grandes eventos, apenas o peso do que ficou mal resolvido. É justamente dessa contenção que nasce a força do drama.
Branagh interpreta Shakespeare como alguém acostumado a controlar palavras, mas desconfortável diante do silêncio e das perguntas diretas. O personagem tenta retomar espaço, organizar a casa e restaurar vínculos, mas encontra resistência imediata. Anne Hathaway (Judi Dench) não é uma figura passiva esperando explicações tardias. Ela administra a casa, estabelece limites e responde com firmeza a um marido que chega tarde demais para ditar regras. Judi Dench constrói Anne com economia e autoridade, tornando cada troca verbal um pequeno campo de batalha emocional.
As filhas também funcionam como espelhos incômodos. Susanna e Judith exigem presença, reconhecimento e clareza, coisas que Shakespeare nunca soube oferecer plenamente. O roteiro evita confrontos espetaculares e aposta em diálogos curtos, cheios de subtexto, onde cada frase dita ou evitada tem peso. O filme entende que, em certos lares, o conflito não explode: ele se acumula e se manifesta em gestos mínimos, olhares interrompidos e decisões práticas.
A presença do conde de Southampton (Ian McKellen) amplia o quadro sem desviar o foco. Ele representa o passado público de Shakespeare, sua vida fora da casa, ligada a poder, proteção e risco. O contraste entre essas conversas e o ambiente doméstico deixa claro o quanto o protagonista se sente mais seguro negociando reputações do que afetos. McKellen traz sobriedade e uma sensação constante de cautela, como alguém que sabe exatamente o que pode ou não ser dito.
Dirigindo a si mesmo, Branagh evita qualquer tom reverente. “A Pura Verdade” não quer explicar a importância histórica de Shakespeare nem transformar seus últimos dias em mito. O interesse está no homem comum por trás do nome famoso, lidando com perdas que não admitem revisão. É um filme discreto, às vezes austero, que troca impacto imediato por ressonância emocional. Pode frustrar quem espera grandiosidade, mas recompensa quem aceita observar como o tempo cobra, em silêncio, tudo aquilo que foi adiado.
★★★★★★★★★★




