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O filme da HBO Max que te faz esquecer o celular em 3 minutos: Sean Penn x Dakota Johnson, no olhar Vivien Killilea / Getty Images

O filme da HBO Max que te faz esquecer o celular em 3 minutos: Sean Penn x Dakota Johnson, no olhar

Uma corrida de táxi com um motorista falastrão e uma passageira que sofre por amor vira um surpreendente drama intimista sobre conexões humanas, fraquezas, solidão e desejo nas mãos hábeis de Christy Hall, uma diretora estreante capaz de achar no corriqueiro uma poesia bastante incômoda. Em “Papai”, Hall põe num ambiente mínimo dois estranhos e vai nos convencendo de que eles, por paradoxal que soe, têm muito mais em comum do que as aparências deixam-nos ver, e aí seu relato começa a fazer sentido. Este é um filme sobre o que há por trás das máscaras e armaduras com que saímos à rua todo santo dia, um mistério que somente se desvela quando esquecemos as urgências do cotidiano — falsas, quase sempre — e nos enxergar uns aos outros. Não é nada fácil.

Um encontro marcado

Uma mulher jovem e bonita desembarca em Nova York pelo aeroporto JFK, é atendida por um funcionário latino que dirige-se a ela por “mami” e entra num táxi, mais emburrada do que distraída. Sua tensão vai se dissipando, seu rosto vai ficando bem menos crispado à medida que evolui a conversa com o chofer, um homem maduro, experiente, um genuíno observador da vida como ela é, que menciona a dificuldade de se receber gorjetas nesses tempos de cartões de crédito que compram de hambúrgueres a maconha. Acompanhar o papo dos dois é um deleite à parte, exercício metalinguístico que concorre justamente para nossa inapetência quanto a estabelecer uma nova ligação com quem quer que seja, ainda que por três quartos de hora, duração que a viagem teria, não fosse um engarrafamento. Ela vai para Midtown, no coração de Nova York, região que ele parece conhecer bem. 

Questionário Proust

A diretora-roteirista propõe um confronto lúdico de verdades e mentiras, luz e sombras, entre esses dois estranhos ansiosos por colocar suas cartas na mesa. Ela diz que cresceu em Gage, Oklahoma, no centro-oeste americano, mas ele dá a entender que não acredita, afinal, ela não tem sotaque nenhum. Ele se chama Clark, se parece mais com Vinny, mas, no final, confessa preferir Mikey, ou seja, são duas almas penadas na Grande Maçã, dois fantasmas à procura de um corpo. A certa altura, a mulher, tratada apenas por Girlie, começa a responder mensagens de texto de um homem, que diz precisar dela. Ele precisa mesmo, mas para um orgasmo clandestino, e Clark penetra de uma vez por todas o universo atormentado da garotinha. O homem mais velho e casado que envia-lhe fotos pornográficas, o tal Papai do título, é o sujeito que ela ama. Clark já foi esse homem para outra.

Divã sobre rodas

Talvez Clark nem goste desse trabalho, a não ser pelo fato de poder passar tantas horas encerrado em seus pensamentos que agora tem o dom de saber o que seus passageiros estão pensando. Durante os cem minutos de filme, tive a nítida impressão de que as perguntas mais e mais invasivas acabariam por redundar numa denúncia de assédio ou num crime sexual, mas felizmente não é isso. A espantosa química entre Dakota Johnson e Sean Penn põe por terra qualquer conclusão precipitada: Clark é só um solitário tagarela que desenvolveu o gosto de escrutinar gente infeliz como Girlie, fazendo de seu táxi um consultório de psicanálise, muito bom, aliás. Com “Papai”, Christy Hall deixa claro que também se faz ótimo cinema com pouco.

Filme: Papai
Diretor: Christy Hall
Ano: 2023
Gênero: Drama
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.