Sempre que uma criança perde sua inocência, a humanidade morre um pouco. Ainda na infância, o mundo vai se nos revelando um lugar surpreendentemente hostil, onde somos forçados a medir cada palavra e estudar todo gesto, sob pena de arcar com consequências pesadas demais para nossos ombros estreitos, onde flutua uma cabecinha deveras sonhadora. Situações extremas têm o condão de fazer com que petizes se tornem adultos antes da hora, mas no fundo sempre resta o candor que deixa tudo um pouco menos austero, por mais duvidoso que pareça, e espertas, as crianças acabam encontrando um jeito de dar um sentido novo a vivências desumanas, o argumento central de “Quando Hitler Roubou o Coelho Cor-de-Rosa”.
Uma menina extraordinária
Caroline Link e a corroteirista Anna Brüggemann adaptam o best-seller lançado em 1971 pela ilustradora germano-britânica Judith Kerr (1923-2019) de modo a destacar a natureza contraditória do nazismo, ideologia grandiloquente que só foi capaz de crescer tanto e tão rápido porque alimentada pelo rancor. Em fevereiro de 1933, Berlim começa a ficar preocupada com a ascensão de Hitler como uma liderança popular, e Link faz o registro da maneira mais lúdica que consegue, reunindo crianças numa brincadeira inocente, mas que, em lances sutis, prenuncia o horror. Aos nove anos, Anna Kemper vive com o pai, Arthur, jornalista, e a mãe, Dorothea, uma musicista clássica, burgueses sem grandes sobressaltos, até começarem a perceber as mudanças. O Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães sobe e os Kemper são caçados pelos novos donos do poder.
Ver o futuro no passado
Como sói acontecer em filmes desse gênero, “Quando Hitler Roubou o Coelho Cor-de-Rosa” experimenta viradas narrativas que testam o público, e ainda que o sonho com uma pátria novamente livre e soberana esteja longe, Anna personifica a onda de terna inquietude que mantém a família a salvo do desespero. O desafio de Link, sobretudo depois que o regime totalitarista é uma realidade e a guerra vai ganhando substância, é não derivar para a pieguice. O deslocamento compulsória de Anna, seus pais e o irmão, Max, para a Suíça assinala um ponto de inflexão considerável no longa, justamente quando Riva Krymalowski, tão delgada quanto talentosa, arrasta Oliver Masucci, Carla Juri e o ótimo Marinus Hohmann para um desfecho reconfortante, muito diferente do final destinado a outros seis milhões de judeus na Europa nos doze cruentos anos do Terceiro Reich.
★★★★★★★★★★




