A relação entre o Natal e o Apocalipse pode parecer insólita, mas logo se pode notar que os dois dividem algumas semelhanças. Sinônimo de renovação do amor que une todos os seres humanos, o Natal é alento num mundo que insiste em enaltecer o que destrói, e esse é o cenário no qual visões apocalípticas ganham força, até com lirismo. Se o nascimento do Salvador não é capaz de redimir as almas impuras, com o fim dos tempos nada mais sobra, mau ou bom, e tudo pode, afinal, ser refeito, ideia que flutua nas entrelinhas de “A Última Noite”, um terror bem-humorado, quase leve, sobre as hipocrisias das relações. Camille Griffin compõe um filme de estreia ágil, perspicaz, que em pouco mais de hora e meia apresenta a máscara de seus personagens derretendo sob o calor de uma nuvem tóxica que cresce.
Grito de alerta
A diretora-roteirista passa um recado urgente: ou cuidamos da Terra, ou ninguém escapará. Enquanto esse momento não chega, um grupo de amigos viaja para a casa de Nell e Simon, no interior da Inglaterra, onde dividirão a mesa na noite mais feliz do ano. Nell e Simon são pais de Art, Hardy e Thomas, criados com toda a liberdade e todas as regalias que pais moderninhos devotam às crianças hoje, e observar essas cinco figuras dá ao espectador subsídio o bastante para dizer que a felicidade deles não é tão real. Como Nell e Simon, Keira Knightley e Matthew Goode viram os excelentes anfitriões do filme, coordenando a movimentação de um elenco coeso, determinado a fazer do limão uma refrescante limonada. Griffin também emprega a escatologia para guardar a atenção do público, com cenouras e sangue.
Mensagens cifradas
Silencioso, enigmático, o primeiro embate de “A Última Noite” é entre Nell e sua irmã, Sandra, que aparece embrulhada a vácuo num vestido vermelho de lantejoulas que comprou desviando parte do dinheiro da poupança da filha, Kitty, acompanhada do marido, Tony, um bom sujeito, mas um tanto ingênuo demais. Por mais que Nell tente, Sandra é um elefante numa loja de cristais, escandalizando todos a sua volta e sem peso na consciência. Nesse enredo meio nonsense e muito idiossincrásico, melhor mesmo é olhar para o que pode fugir a nossa compreensão e tirar proveito de atuações como as de Knightley e Annabelle Wallis, que rouba a cena e chega a ela própria justificar o longa ao dar vida a uma mulher leviana, frívola, que se insinua para um ex-namorado de faculdade e encarna a perdição a que Griffin alude só por alegoria. Uma noite basta para trazer o inferno à tona.
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