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Indicado a 2 Globos de Ouro e possível rival do Brasil no Oscar 2026, drama irretocável está na Netflix Divulgação / Black Bear

Indicado a 2 Globos de Ouro e possível rival do Brasil no Oscar 2026, drama irretocável está na Netflix

Quando Robert Grainier (Joel Edgerton), marido de Gladys (Felicity Jones) e pai num ambiente de fronteira, cai sob o peso do trabalho cortando árvores e alargando trilhos para a ferrovia, ele aceita a dureza do esforço físico como fato da vida. Em “Sonhos de Trem”, dirigido por Clint Bentley, Robert alista-se em expedições florestais que o levam por longas semanas a campo aberto, obrigando-o a ceder tempo com Gladys e a filha pequena por rigor dos contratos de corte e do cronograma dos trilhos. Sua ação diária com motosserras e picaretas é medida pela necessidade de manter a família e pela escassez de alternativas de sustento nas regiões remotas do noroeste americano, e essa dinâmica de trabalho prolongado estabelece desde cedo que o custo de prover é perder proximidade e presença.

Logo que Robert retorna de um ciclo de trabalho extenuante para a pequena casa que ele e Gladys construíram à beira de um rio, ele negocia cada segundo com a esposa em janelas de silêncio, refeições calmamente tensionadas e promessas não ditas. Felicity Jones imprime em Gladys uma combinação de força prática e amor insistente; quando ela pergunta a Robert se ele planeja ficar por mais que alguns dias naquela estação, a resposta dele não altera a determinação de ela manter a aparência de um lar estável. Esse impasse entre a obrigação de trabalhar longe e o desejo de uma rotina compartilhada cria um atrito que não se resolve com palavras, mas com atos de tentativa e recuo entre os dois.

Obstáculos da própria história

Enquanto a ferrovia avança por terrenos acidentados e as árvores tombam, Robert testemunha cenas de violência e exclusão entre trabalhadores que o marcam profundamente. Ao escolher permanecer ao lado de colegas em um acampamento improvisado, ele enfrenta o clima hostil, tensões étnicas e a constante ameaça de acidentes. Cada manhã de marcha até o local de corte representa um cálculo de risco: quanto esforço físico ele pode investir antes que um tronco caia errado, ou antes que um colega sucumba à fadiga e irresponsabilidade. Esses riscos não se dissolvem com o pôr do sol; eles retornam com cada alarme que indica mais uma semana longe de casa.

Alguns dias depois de uma jornada particularmente longa pelos trilhos recém-montados, Robert recebe uma carta de Gladys pedindo que ele repense seus planos de trabalho. Quando ele tenta ceder à solicitação dela, encontra portas fechadas e contratos que ainda o obrigam a permanecer em serviço até que uma nova fase de corte seja concluída e aprovada pelos superiores. Esta sequência de promessa, impedimento e renegociação ressoa como uma espécie de contrato simbólico com o próprio tempo: cada avanço nas ferrovias representa um atraso em sua vida pessoal, e cada tentativa de reaproximação com a família é medido pelo prazo do trabalho que não pode desistir.

Silêncio e convivência

Ao atravessar vilarejos e encontros casuais com outros homens que, como ele, vivem longe do lar, Robert acumula histórias breves de amizade, desconfiança e cumplicidade. Com Arn (interpretado por William H. Macy), um velho que lida com explosivos de dinamite, Robert intervém para evitar um erro prático que poderia custar a segurança de todos. Esse gesto de socorro gera efeito imediato: Arn cede uma ração extra de mantimentos ao grupo e confere a Robert um pequeno fôlego de autoridade entre os trabalhadores, mas também expõe Robert à culpa de liderar outros em direção a desafios que ele não pode controlar. Ao longo desses encontros, a comunicação mínima entre homens endurecidos pelo frio e pela fadiga é o único recurso para manter um senso de ordem frente à violência latente das serras e trilhos.

No retorno a um trecho que ele conhecia bem na floresta, Robert decide acompanhar a retomada de uma trilha que havia aberto meses antes. O acesso ao local é difícil, e ele recua várias vezes diante de árvores tombadas e solo enlameado, mas persiste até encontrar um vestígio da casa que ele e Gladys imaginaram construir juntos. Ao levantar uma velha tábua com inscrições quase apagadas, Robert enfrenta a materialidade do passado e o peso das escolhas que o afastaram de sua família. Essa atitude de revisitar um objeto físico no meio das árvores derrubadas cria uma ponte concreta entre sua memória e o estado atual de seus laços – um efeito que pesa mais do que qualquer pensamento abstrato sobre saudade.

Última margem

Quando a estação de trem apita e anuncia a próxima etapa de trabalho, Robert deixa de lado a contemplação e volta a caminhar em direção ao acampamento, carregando junto a lembrança de quem ele foi e de quem ainda tenta ser. A conseqüência de suas decisões até aqui o posiciona não apenas como um trabalhador sobre trilhos, mas como alguém cuja história pessoal foi moldada pelo modo de vida itinerante que escolheu ou que lhe foi imposto. Ao aceitar essa marcha constante, ele recupera alguma autoridade sobre seu percurso e se põe em movimento outra vez, mas com a consciência de que cada passo implica um balanço entre presença e perda.

Em “Sonhos de Trem”, a vida de Robert Grainier pulsa entre a necessidade de trabalho e o desejo de pertencimento, revelando que o verdadeiro custo de existir em um mundo em mudança rápida é a negociação diária entre aquilo que se ganha e aquilo que se deixa para trás. 

Filme: Sonhos de Trem
Diretor: Clint Bentley
Ano: 2025
Gênero: Drama
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.