Levico Terme se chamava simplesmente Levico quando o jovem Vigilio Fontana, meu trisavô, pegou a puída mala com os poucos pertences que lhe significavam mais, vestiu o casaco cáqui, colocou o chapéu surrado sobre a cabeça e fechou a porta da casinha de madeira pela última vez.
A terra estava arrasada, uma estiagem sem fim e a desordem do turbilhão daquela época, reflexos sociais e financeiros dos conflitos e atritos pela unificação daquele amontado de cidades em um só país, a Itália. Na véspera, Vigilio havia se despedido da família e pedido a bênção à velha mãe Teresa Rauta — o pai, Lazzaro, já tinha falecido fazia alguns anos.
Caminhou solene até a estação de trem, atualmente em ruínas, pois no século 20 foi substituída por uma maior. No bar anexo, alguns amigos jogavam carteado, fumavam e bebericavam um vinho de má qualidade. Pediu uma dose de licor de sambuca. Imaginava que seria a última vez que sentiria aquele gosto. E estava certo.
Quinze minutos depois, ia já instalado dentro do trem com destino a Trento. Mais duas horas de espera, outro trem até Gênova. Então um navio, um grande navio onde cabiam seus planos de uma vida melhor, onde cabiam os sonhos de milhares que, como ele, iam ao desconhecido Brasil para fazer a América.
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Nicola Castelluccio já morava no Brasil há mais de 20 anos quando recebeu uma carta de sua cunhada e logo estranhou o nome dela — e não do irmão — no envelope, à guisa de remetente. “Salvatore è morto in guerra”, era o conteúdo do pequeno manuscrito, garranchos de quem pouco sabia escrever.
O caçula, que mal andava quando ele partiu da pequena Lagonegro rumo ao Brasil.
Meu trisavó guardou de volta o papel dentro do envelope. Tirou o lenço do bolso da calça e passou no rosto. Não como quem enxuga uma lágrima furtiva, pois ele era desses que diziam que homem não chora. Manuseou o lenço como quem limpa o suor da testa. “La vita… La vita continua.”
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Das pequenas alegrias do viajante, estive em 2018 e em 2019 nas cidadelas de dois dos meus antepassados. Percorri as ruas que parecem congeladas no tempo. Vi o que restou da antiga estação de Levico, fotografei o monumento em memória aos jovens de Lagonegro mortos na Primeira Grande Guerra. Brindei aos dois, Vigilio e Nicola.
Como imigrante que me tornei, só posso enaltecer estes caras. Mas não pela coragem, chavão que muitas vezes acompanha a sina de quem decide virar estrangeiro, porque muitas vezes mudar de país pode ser também um heroico gesto de brava covardia. Nicola, afinal, escapou da guerra. Vigilio, afinal, escapou da fome.
Do que foi que eu escapei, afinal?


