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Gary Oldman em um drama épico que vira uma aula de história em 2 horas — na Netflix Jack English / Focus Features

Gary Oldman em um drama épico que vira uma aula de história em 2 horas — na Netflix

Em maio de 1940, com tropas britânicas cercadas na França e o governo em colapso, “O Destino de uma Nação” acompanha a chegada de Winston Churchill ao cargo mais exposto do país. Joe Wright dirige Gary Oldman, Kristin Scott Thomas e Lily James num drama histórico em que o novo primeiro-ministro precisa decidir se busca uma saída negociada com Hitler ou se insiste em continuar a guerra, mesmo sem garantia de vitória.

A narrativa se organiza como um problema de gestão do impossível. Churchill tenta reunir apoio num gabinete que já nasce desconfiado, enquanto notícias do front apertam o relógio e reduzem o espaço para hesitação. Ele se apoia em assessores, mensagens e relatórios para sustentar a própria posição, mas o obstáculo principal é doméstico, a pressão de colegas que enxergam na conciliação um caminho menos arriscado para preservar o país e também carreiras. Cada hora gasta em debate muda a situação lá fora, e a sensação de atraso vira parte do conflito.

A crise dentro do gabinete

O filme ganha corpo quando a disputa deixa de ser só moral e vira aritmética política. Churchill insiste em permanecer no comando do rumo, mas encontra resistência de figuras centrais do governo, especialmente Lord Halifax e Neville Chamberlain, que puxam a conversa para a ideia de acordo. A consequência é imediata. Ao tentar evitar uma ruptura interna, ele precisa ceder tempo, oferecer garantias e medir palavras, e cada concessão abre uma brecha para que a dúvida pareça institucional, não pessoal.

Há uma escolha inteligente em colocar ao lado dele alguém que observa antes de julgar. A secretária, que registra ditados e correções, funciona como termômetro do ambiente, porque vê o líder nos intervalos em que o teatro político cai. O efeito é de escala humana, sem transformar a história em confidência.

A fala como arma

Quando o filme se volta para os discursos, ele não os trata como ornamento, e sim como ferramenta de sobrevivência. Churchill tenta construir uma frase que segure aliados e adversários ao mesmo tempo, só que cada palavra esbarra no obstáculo de um país cansado, de uma Câmara pronta para punir hesitação e de um gabinete que quer números, não metáforas; a fala, ou melhor, a tentativa de fazer a fala parecer inevitável, vira uma batalha diária em que ele não diz tudo, mas também não consegue mais esconder o que pensa, e isso altera o comportamento de quem o cerca. O texto que ele prepara tem consequência prática, porque define o que pode ser defendido em público e o que precisa ser varrido para o corredor.

Wright filma esse impasse em espaços que parecem apertar o corpo. A política acontece em salas fechadas, em corredores, em passagens subterrâneas, e o mundo externo surge como pressão constante, não como panorama. A guerra entra pela fresta, por mapas, telefonemas, recados que interrompem uma conversa e fazem o plano do minuto anterior parecer frágil, obrigando Churchill a ajustar o tom sem perder a linha, e a mudança de tom, ali, é decisão.

O homem atrás do cargo

A atuação de Oldman sustenta a ambição do projeto ao tratar Churchill como figura pública e pessoa difícil de conviver. O filme observa hábitos, cansaço, explosões de humor, e deixa claro que o carisma cobra pedágio do entorno, especialmente de quem precisa ouvir, corrigir e aguentar. Kristin Scott Thomas, como Clemmie, dá peso ao lado doméstico sem sentimentalizar, e a relação aparece como freio e espelho, alguém capaz de interromper a pose quando ela vira desculpa.

O cuidado de encenação e caracterização entra quando altera a leitura do poder. O rosto muito próximo, a voz que ocupa a sala, o tempo que demora para uma frase sair completa, tudo isso reforça um dado simples, mandar é também expor o próprio corpo ao olhar alheio. Em vez de transformar o personagem em estátua, o filme aceita a contradição, a coragem convive com vaidade, a empatia com irritação, e a insistência pode soar como virtude ou teimosia, dependendo de quem está na sala.

A história no presente

“O Destino de uma Nação” se aproxima de uma tradição de dramas políticos em que a decisão é mais importante do que a reconstituição do evento, e nesse ponto ele dialoga bem com “O Discurso do Rei” ao entender que a fala pública não é catarse, é compromisso assinado diante de testemunhas. O resultado é um retrato que pode simplificar disputas reais em alguns momentos, mas acerta ao mostrar como uma escolha de gabinete reorganiza o país inteiro. No fim, a história permanece menos como lição e mais como pressão concreta, com alguém tendo de voltar, de novo, ao microfone.

Filme: O Destino de uma Nação
Diretor: Joe Wright
Ano: 2017
Gênero: Biografia/Drama/Guerra/História
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★