O homem busca por autonomia desde o princípio dos tempos. Ser livre não é fugir, mas enfrentar os próprios medos, que seguem-nos aonde quer estejamos, obstinados, e desencadeiam mudanças — para o bem ou para o mal. Autonomia e uma dose de risco é tudo com que sonha Tom Michell, um professor que deixa o sul da Inglaterra rumo à Argentina em meio ao caos político que culmina numa ditadura militar de longos e sanguinários sete anos, pano de fundo de “Lições de Liberdade”. Habilidosamente, o diretor Peter Cattaneo ilumina a figura ambígua do protagonista ao passo que prepara o terreno para incluir um personagem curioso, que enriquece a trama sem obscurecer o principal e dosando humor e drama, análise e leveza.
Contexto histórico
Baseado no livro de memórias de Michell, de 2015, o roteiro de Jeff Pope volta à Argentina de 1976, pouco depois do golpe que empossou na presidência do país o general Jorge Rafael Videla Redondo (1925-2013), o primeiro de quatro líderes na Junta Militar que governou o país ao longo de um período marcado por trinta mil mortos e desaparecidos políticos, o que dá no mesmo. De uma maneira bastante peculiar, “Lições de Liberdade” junta-se a “A História Oficial” (1985), o clássico de Luis Puenzo, e “Argentina, 1985” (2022), de Santiago Mitre, ao dissecar os horrores do totalitarismo de Videla, Roberto Eduardo Viola (1924-1994), Leopoldo Galtieri (1926-2003) e Reynaldo Bignone (1928-2018), tentando achar uma razão que justifique o êxodo de Michell, detalhe que vem à tona após Cattaneo situar o público na atmosfera opressiva da época.
Duas solidões
Michell instala-se no St. George’s College, no subúrbio de Quilmes, a 28 quilômetros de Buenos Aires, intimamente convencido a evitar tomar parte em discussões políticas, ministrar suas aulas do jeito mais ortodoxo e aproveitar as férias num resort venezuelano, mas é obrigado a rever seus planos quando depara-se com um pinguim-imperador todo sujo de óleo na praia. Ele resgata o bicho, leva-o para o St. George’s, e então começa para uma jornada de epifanias, clichê a que o diretor confere um verniz de sofisticação ao evocar a poesia fácil do título, absorvida por Juan Salvador, como o pinguim passa a ser chamado. Steve Coogan congrega os diferentes núcleos, e abre alas para que Juan, um misto de computação gráfica e aves reais, também brilhe. Jonathan Pryce é um achado, mas é a María de Vivian El Jaber a grata surpresa neste meio filme, meio sonho.
★★★★★★★★★★




