Famílias são associações de pessoas com a mesma origem e sonhos diferentes. A partir de então, pululam as disputas por colo, as brigas por independência, os arranca-rabos em que cada um acha-se o dono da verdade, ainda que saibam que, cinco minutos depois, ou uma hora, ou vinte anos, essas patéticas disputas não irão significar mais nada — às vezes, essa óbvia conclusão se anuncia a tempo de ninguém ter ainda sumido para nunca mais voltar, mas de um modo ou de outro, ela acaba por vir. A morte está sempre à espreita em “Minha Irmã”, porém o drama das suíças Stéphanie Chuat e Véronique Reymond trata mesmo é de vida, que, sabemos todos, não é sempre bela. O texto, das diretoras, mede bem o grau de pesar e prazer em cada cena, conseguindo que o público se emocione, vá às lágrimas, ria, pense, e tem por pano de fundo uma questão nada romântica, que também faz parte das famílias. Mas não de todas elas.
Irmãos de sangue
Na abertura, Lisa Nilssen está num quarto de hospital com um catéter no braço. Com ela está tudo bem, mas seu irmão gêmeo, Sven, recupera-se de um transplante de medula, esforçando-se muito mais para voltar ao Schaubühne, o famoso teatro itinerante da avenida Kurfürstendamm, em Berlim, do que para corresponder aos clamores da família. O palco os une, ela cogita a possibilidade de voltar a compor uma peça para Sven, paulatinamente mais animado, e quando ele recebe alta, os dois vão para a casa de Lisa, na Suíça, onde ele passará uma temporada. Em pouco mais de silenciosos dez minutos, Chuat e Reymond apresentam dois tipos nada óbvios, cheios de nuanças, imperfeitos — impressão que só faz crescer, deixando a experiência cada vez mais instigante. Ninguém consegue sossegar enquanto “Minha Irmã” não põe as cartas todas à mesa e esclarece, afinal, qual será o cotidiano de Sven a partir de então. E ele terá surpresas.
Lisa tem vida própria?
O busílis do enredo é convencer o espectador de que Lisa é mesmo uma mulher forte, altiva, senhora de seu destino, embora cercada de enroscos que não lhe pertencem. Na capital alemã, ela visita a mãe, Kathy, e é aí que resolve que Sven deve mesmo ir para sua casa, onde mora com o marido, Martin, e Linne-Lu e Noah, os gentis filhos do casal. Marthe Keller rouba a cena como a mãe bruxa meio dissimulada e por vezes hedionda, outra preocupação para a irmã coragem, prestes a enfrentar o golpe de misericórdia em meio ao caos já tirânico. Depois de uma aula sobre “Cartas a Um Jovem Poeta” (1929), do austríaco Rainer Maria Rilke (1875-1926), Martin lhe comunica que renovou o contrato com o liceu onde trabalha, frustrando o desejo da esposa de regressar a Berlim e ficar mais perto de Sven. As diretoras só desatam esse nó graças à química entre Nina Hoss e Lars Eidinger, primeiro, e depois entre Hoss e Jens Albinus. “Minha Irmã” é um filme raro, mas os atores conseguem ser simplesmente espantosos.
★★★★★★★★★★




