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Ficção científica na Netflix mistura política e suspense e te prende do primeiro ao último minuto Divulgação / LD Entertainment

Ficção científica na Netflix mistura política e suspense e te prende do primeiro ao último minuto

“Estação Espacial Internacional” poderia ser apenas mais um suspense claustrofóbico em cenário fechado, mas demonstra competência justamente na forma direta com que transforma política global em conflito íntimo. A premissa é simples e eficiente: enquanto a Terra mergulha em uma crise geopolítica, astronautas americanos e russos recebem ordens incompatíveis para assumir o controle da estação. A partir daí, o que era rotina técnica vira um campo minado de decisões práticas, silenciosas e potencialmente irreversíveis.

A diretora Gabriela Cowperthwaite conduz a narrativa com clareza e sem pressa desnecessária. O filme não depende de reviravoltas espetaculares nem de explicações grandiosas sobre o estado do mundo. O interesse está no detalhe: quem tem acesso a qual módulo, quem controla determinados sistemas, quem fala primeiro quando uma instrução chega fragmentada da Terra. A estação deixa de ser um símbolo abstrato de cooperação internacional e passa a funcionar como território disputado, com portas, corredores e painéis assumindo peso dramático real.

Ariana DeBose sustenta bem o centro emocional do filme, compondo uma personagem que precisa equilibrar responsabilidade técnica e pressão política sem espaço para discursos heroicos. Chris Messina trabalha no registro oposto, mais assertivo, quase rígido, representando a lógica da autoridade que prefere agir rápido a negociar. Já John Gallagher Jr. funciona como ponto de fricção entre esses dois impulsos, alguém que tenta manter procedimentos e relações funcionando enquanto o ambiente se deteriora. O elenco opera com contenção, o que combina com o tom seco da proposta.

O suspense nasce menos de ameaças externas e mais da erosão gradual da confiança. Cada escolha reduz alternativas futuras, cada gesto altera posições de poder dentro de um espaço que exige cooperação constante para simplesmente continuar existindo. Há momentos de leve humor, quase involuntários, quando a burocracia técnica entra em choque com a urgência política, mas eles duram pouco e logo dão lugar a uma sensação de desconforto crescente.

Cowperthwaite evita transformar o filme em alegoria explícita. A encenação prefere sugerir, atrasar informações e manter certas decisões fora de quadro, o que reforça a sensação de isolamento e incerteza. Nada é explicado em excesso, e isso funciona a favor da experiência, porque obriga o espectador a acompanhar as consequências práticas das escolhas, não suas justificativas ideológicas.

Sem apelar para grandes cenas de ação ou discursos inflamados, “Estação Espacial Internacional” aposta em tensão acumulada e conflitos de autoridade bem definidos. É um filme que se sustenta mais pelo encadeamento lógico das decisões do que por surpresas, e justamente por isso soa mais plausível e incômodo. Fica a impressão de que, quando a política chega ao espaço, até a sobrevivência vira um problema de negociação.

Filme: ISS: Estação Espacial Internacional
Diretor: Gabriela Cowperthwaite
Ano: 2023
Gênero: Ficção Científica/Suspense
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★