Como se sabe, as drogas continuam fazendo vítimas mundo afora, sem distinguir entre classe social, faixa etária ou cor da pele. Entorpecentes podem ser o passaporte macabro para um universo fantasioso, melancólico, feito de mentiras e dor, prometendo cem e entregando, sossegadamente, um décimo. A desestruturação familiar é a etapa inicial de um processo que adoece o corpo e o espírito, crescendo com tal força que uma posição das autoridades comprova-se necessária. Sem método, “Boca de Fumo” alimenta a pretensão de contribuir para o debate, porém só provoca constrangimento pelo nonsense involuntário. Michael Dowse faz o que pode com o roteiro de Tom O’Connor e Gary Scott Thompson, mas é pouco diante de tanto erro.
Bom policial, péssimo pai
Ray Seale é um dos melhores quadros da DEA, a agência antidrogas americana, mas não tem se saído tão bem em suas funções domésticas. Para chegar aonde quer, Dowse cerca o protagonista, investiga-lhe os medos por debaixo da cara de mau e da armadura de herói, até vislumbrar um coração aflito, que pressente o inimigo ameaçar o que tem de mais valioso. Aos poucos, o diretor explica que Ray está viúvo há algum tempo, imerso no trabalho, e sugere que essa seria uma das razões para o afastamento entre ele e o filho, Cody. Uma das grandes fragilidades da trama é a química deficiente entre Dave Bautista e Jack Champion, cada qual ocupado com a veracidade de sua performance, o que acaba por comprometer a coesão da história. Quando Dowse tenta, no segundo ato, consertar o equívoco, uma terceira figura surge como respiro cômico, sem muito êxito.
A velha fórmula
Frente ao que vinha sendo apresentado, ”Boca de Fumo“ escapa do desastre completo com Andre Washburn, o coadjuvante de luxo vivido por Bobby Cannavale. É ele quem segura as pontas enquanto Ray faz um esforço para sucumbir à tristeza depois de remexer seus baús de ossos e ter a avassaladora certeza de que é responsável pela nova vida de Cody, o mote principal do filme. Ao cabo de 102 minutos, só o que se pode dizer é que é preciso ser muito tolo para falar de trabalho em casa quando se é um homem como Ray Seale.
★★★★★★★★★★




